Se o Grajaú Fosse Nosso – A vida em comunidade

O segundo domingo do mês de abril amanheceu mais uma vez em clima comunitário no bairro do Grajaú, zona norte do Rio de Janeiro. A viva praça Edmundo Rêgo abrigou entre a manhã e a tarde de um dia 10 ensolarado, três eventos que reforçaram o espírito comunitário e de entendimento, convivência e tolerância entre vizinhos, trabalhadores, estudantes e demais pessoas que circulam e transitam pelo território. Estavam lá a feira “Desapegue-se”, o movimento “Se a Cidade Fosse Nossa” em sua versão local e o mutirão da “Horta Comunitária do Grajaú“.

Foto: Katiana Tortorelli

Foto: Katiana Tortorelli

O dia começou com as experiências de troca na feira “Desapegue-se” e também, com o cuidado e a atenção das atividades da Horta Comunitária, atividades que levam mensalmente comunhão, conhecimentos sobre alimentação e outros saberes aos moradores do Grajaú. Ambas já estão no calendário da região, acontecendo sempre no segundo domingo do mês e têm caráter especial pois, não há venda de objetos, mas sim, uma feira orgânica de trocas e doações de produtos, serviços e o melhor, de experiências.

Em meio à vivência dos tradicionais grupos, o “Se o Grajaú Fosse Nosso” trouxe ao clima harmônico e alternativo, o debate comunitário aliado ao senso de cidadania, tentando reapresentar a necessidade da vida coletiva apreciar o verdadeiro significado de democracia – aquele da ágora; da conversa na polis sobre suas questões objetivas e subjetivas, com indivíduos e grupos se posicionando de forma a se respeitar falas e a se ter direito de se expressar, ser ouvido e ouvir o outro. O encontro celebrou o desejo de se expor ideias, opiniões e vontades há muito sufocadas pela inoperância das relações entre o estado e as pessoas. Decisões sobre o trânsito e mesmo, a economia de uma região são definidas em gabinetes e assembleias indiretas, sem a participação dos cidadãos e cidadãs atingidas pelas mesmas. Portanto, Se o Grajaú Fosse Nosso personifica uma conversa que provoca conclusões coletivas e a propagação de ideias que reforçam o senso e a colaboração comunitária.

Se o Grajaú Fosse Nosso - Desapegue-se

Gustavo Bueno, morador do bairro e ativista político, abriu o evento expondo a importância do Grajaú também construir sínteses que ao mesmo tempo identifiquem carências, mas também, as boas e acertadas experiências vividas na região nos últimos anos. “Nós já conseguimos impedir com que a praça Nobel entrasse em mais uma estatística (com o movimento Clínica sim, Praça sim), agora é o momento de continuar a discutindo as vocações e as necessidades do Grajaú”, afirmou.

O encontro teve como principais assuntos o eixo ambiental, saúde, as relações comunitárias e a mobilidade urbana. Com um dos mais detacados mandatos de ativismo ambiental da câmara, o vereador Renato Cinco firmou a pauta ambiental traçando um panorama histórico da apropriação dos espaços públicos no Rio e, especificamente, na região da Grande Tijuca. O grupo de moradores que discutiu o tema trouxe para o encontro a necessidade de se criar um conselho para o Parque do Grajaú, que tem instâncias estadual e municipal, além de incentivar escolas a levar seus alunos para visitá-lo.

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Os participantes apontaram a necessidade de se discutir o lixo que sobra das feiras por meio de campanhas que estimulem não só o recolhimento como a separação dos resíduos. Uma das ideias seria o incentivo a criação de compoteiras no bairro e também a ampliação da área de hortas comunitárias, levando-as a praças e locais com menos atenção. Sobre os recursos hídricos, desejam se aproximar da comunidade da Divineia e também, criar um projeto de mapeamento e preservação das nascentes da região. O grupo de discussão decidiu com o encontro, criar um coletivo para uma conversa permanente sobre os assuntos ambientais do Grajaú, tendo como parâmetro a Horta Comunitária, evento que também ocorre uma vez por mês na praça Edmundo Rêgo.

Saúde: equipamentos, resistência e informações

O grupo de moradores que trocaram sobre saúde trouxeram para o debate sobre o bairro dúvidas e também, o orgulho da luta e da vitória. Ao mesmo tempo em que questionaram o direcionamento dos serviços prestados pela Saúde da Família na região da Grande Tijuca, apontando informações incorretas nos postos e pela própria Prefeitura, comemoraram a negociação alcançada pela comunidade em relação à praça Nobel, destinada a ter sua área comprometida em favor de uma clínica, mas que agora, foi destinada para a rua Botucatu, em uma imóvel público. Apesar disso, o grupo apontou a necessidade de se acompanhar as obras que se encontram atrasadas.

Uma terceira parcela dos participantes do evento se reuniram para discutir sobre a ocupação dos espaços públicos. Reunindo feirantes, produtores culturais e demais moradores, o grupo elencou ações importantes para o debate. Para eles é preciso criar condições de ocupação como ponto de luz, água e banheiros públicos, além da desburocratização do espaço público para manifestações culturais e populares. A comunidade acredita haver necessidade de integrar as escolas da região com o espaço público, com o uso desses para atividades locais e de educação ambiental.

Outros assuntos também tiveram destaques na fala do grupo como a melhoria e ampliação das ciclovias, bem como a instalação de bicicletários no bairro; incentivo a hortas comunitárias; além da criação de comissões públicas de ocupação do espaço público e de uma gestão que incentive o orçamento participativo.

O quarto e último agrupamento presente a imaginar “Se o Grajaú Fosse Nosso” falou sobre mobilidade urbana. Pontos finais para coletivos, suas condições, bem como a necessidade de transportes alternativos permearam a conversa entre os moradores do bairro presentes no encontro.

Terminais de ônibus

Os participantes do encontro creem que a logística deva favorecer à circulação interna, com respeito aos limites de velocidade tanto de veículos coletivos ou particulares, aumentando a acessibilidade para os cidadãos e também harmonizando as opções para circulação e permanência de carros no bairro. Em um Grajaú ideal, os ônibus teriam seus pontos finais espelhados em modelos já utilizados como os terminais da Usina e do Cosme Velho. Dos atuais coletivos que atendem ao bairro, muitos estão em situação precária, com motoristas em dupla-função e ao mesmo tempo, redução de trajetos e diminuição da quantidade de carros que atendem à população. Além disso, os moradores apostam na importância da integração entre modais e que haja preferência por projetos de trilhos como o VLT. E também, situações que condicionem à circulação de bicicletas, não inviabilizando o uso e a necessidade dos ônibus, muito pelo contrário, melhorando as condições para quem utiliza o sistema e também para os trabalhadores que prestam os serviços.

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Se o Grajaú Fosse Nosso chegou ao seu término com as falas dos deputados estaduais do PSOL Eliomar Coelho e Marcelo Freixo. Ambos salientaram a necessidade da conversa e da participação popular nas comunidades e também, na vida política. A busca e a troca de informações oxigena a vida social e aumenta a chance de pessoas se associarem para mudar as condições injustas impostas pelos grupos de poder. Somente uma democracia radical, com a participação efetiva de todas e todos nas decisões podem nos dar condições de construir uma sociedade que valorize a vida e não os negócios e os interesses individuais.

O Se a Cidade Fosse Nossa é um movimento de construção coletiva e colaborativa iniciado pelo PSOL Carioca em 2015. A concepção primordial é a participação individual e coletiva de pessoas e seus movimentos sociais em uma discussão sobre o direito à cidade. Promovendo encontros, palestras e cursos baseados em temas como moradia, saúde, educação, cultura e mobilidade o Se a Cidade Fosse Nossa se tornou uma ferramenta para a construção colaborativa de um programa para a cidade do Rio de Janeiro.

Pela plataforma online – www.seacidadefossenossa.com.br, envia-se ideias para temas como planejamento e gestão, segurança pública, esporte e lazer, além dos citados no último parágrafo. Ao mesmo tempo, encontros presenciais nos bairros, geram sugestões e atividades que se tornam parte de uma proposta de governo participativo, popular e regional no Rio.

Participe das decisões de sua comunidade e de sua cidade. Cadastre-se e apresente suas ideias!