Cultura, arte e meio ambiente no Se Jacarepaguá Fosse Nossa

jacaré aberto

Cerca de 100 pessoas, entre moradores e representantes de movimentos de Jacarepaguá, participaram do debate

A Baixada de Jacarepaguá, que inclui 19 bairros, tem o segundo maior acervo histórico da cidade do Rio de Janeiro e um rico conjunto arquitetônico que remonta ao período colonial. Entretanto, esse patrimônio cultural está ameaçado pela negligência do poder público e pela especulação imobiliária, que também devasta o meio ambiente e põe em risco a sobrevivência de comunidades tradicionais de pescadores e quilombolas.

Durante o encontro Se Jacarepaguá Fosse Nossa, realizado na tarde do último sábado (14), no Clube Recreativo Português, na Taquara, o historiador e membro do Instituto Histórico da Baixada de Jacarepaguá (IHBAJA), Val Costa, alertou sobre a importância da preservação da memória da região. O debate, que reuniu cerca de 100 pessoas, entre moradores e representantes de movimentos sociais da região, também contou com a participação de Silvia Regina, do Coletivo de Mulheres do Sertão Carioca, do deputado estadual Marcelo Freixo e do vereador Leonel Brizola Neto.

“Você só ama o que você conhece. E quando você ama, preserva. Um povo que não conhece a sua história é um povo sem identidade. E um povo sem identidade é facilmente manipulado. A herança cultural indígena e africana foi apagada. O IHBAJA tenta resgatar isso não só através de leis, mas de momentos essenciais como esse. Queremos contribuir para a construção de uma cidade em que todos os setores da população sejam ouvidos e representados”, afirmou o historiador.

menina

Cultura

A falta de equipamentos culturais e incentivo à produção artística foi uma das principais queixas. “A cultura não é só importante para a memória, ela também gera empregos e permite que os artistas locais tenham espaços para mostrar sua arte. A produção cultural envolve uma série de atividade importantes que poderiam gerar renda. A lona cultural não é suficiente”, explicou.

Marcelo Freixo lembrou que o Rio de Janeiro é uma das cidades mais desiguais do país. Das oito maiores regiões metropolitanas do Brasil, a do Rio foi a que menos reduziu a diferença entre ricos e pobres entre 2001 e 2011. Essa desigualdade se reflete no espaço urbano de diversas formas, entre elas a política cultural.

“De São Cristóvão e Benfica até a Zona Sul, onde vivem cerca de 1,2 milhão de pessoas, existem 376 equipamentos de cultura – cinemas, teatros, bibliotecas. Nas zonas Norte e Oeste, que têm aproximadamente 5 milhões de moradores, há somente 74 equipamentos”, revelou. Enquanto na Zona Sul existe em média um espaço cultural para 3.191 pessoas. Nas zonas Oeste e Norte, a proporção é de um equipamento para 67.567 habitantes.

Para Freixo, a prefeitura precisa criar canais de diálogo e incentivar a formação de espaços autônomos onde os moradores dos bairros possam discutir as políticas públicas, inclusive de cultura, e apresentar propostas para o poder público. “Quem mais conhece a realidade dos bairros do Rio é quem vive neles. Não cabe ao prefeito dizer como vai ser, chegar com ideias prontas, mas ouvir o que a população tem a dizer, o que e como ela acha que precisa ser feito”, explicou.

Justiça socioambiental

Silvia Regina, integrante do Coletivo de Mulheres do Sertão Carioca e do Comitê Popular das Mulheres da Zona Oeste, falou sobre a luta das comunidades tradicionais contra o avanço da especulação imobiliária e seu papel na preservação do meio ambiente.

Muitas vezes o discurso ambiental é distorcido e utilizado pela prefeitura e empresários para tratar essas comunidades como ameaças à preservação. O objetivo é retirá-las das áreas que serão alvo de empreendimentos imobiliários. Silvia Regina destacou que as comunidades são elementos essenciais não só para o meio ambiente, como para a diversidade cultural e a produção de alimentos de forma saudável.

“Só tem floresta onde tem comunidade tradicional. Cinco mil famílias foram removidas
do Maciço da Pedra Branca. Mas aquela floresta só existe por causa da presença delas”, pontuou.

Freixo destacou a importância da agricultura familiar nas economias locais e na produção de alimentos, sem a utilização de agrotóxicos e sem devastar o meio ambiente. Ele defendeu que a prefeitura estabeleça convênios com pequenos agricultores para que o fornecimento da merenda escolar seja realizado por esses grupos e crie formas de incentivar a produção e o diálogo entre os lavradores.

Sobre o avanço da especulação imobiliária, Mariana Bruce, que participa da Articulação Plano Popular das Vargens, denunciou os prejuízos ambientais e sociais que serão causados caso o projeto de lei complementar 140/2015, o PEU das Vargens, que muda as regras urbanísticas da região, seja aprovado pela Câmara de Vereadores.

“O PLC 140/2015 não interessa porque representa a privatização e entrega dos territórios às construtoras. Não somos sonhadoras quando falamos sobre os potenciais agrícolas da nossa região. Não discutimos apenas a legalização das propriedades. Falamos do futuro da nossa cidade, porque o equilíbrio ecológico depende da nossa região. A Baixada de Jacarepaguá tem importância fundamental para toda cidade. Estamos discutindo como viveremos nos próximos anos”, alertou.

meninosSaneamento básico

Segundo dados do Censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos 109.258 domicílios sem rede de esgoto do município do Rio, 77.564 ficavam na Zona Oeste – o equivalente a 71%. A área engloba 57% das moradias da cidade sem rede de água.

Há 30 anos, desde o início do processo de ocupação massiva da região, esgoto é despejado no complexo lagunar da Baixada de Jacarepaguá e na Barra da Tijuca. De acordo com Val Costa, apenas o canal de Joatinga está em condições satisfatórias. O historiador afirmou que 3.600 litros de esgoto in natura são lançados por segundo nas lagoas.

A despoluição do complexo foi um dos compromissos assumidos pelo Estado quando o Rio se candidatou para sediar os Jogos Olímpicos. Um consórcio formado pela Queiroz Galvão, OAS e Andrade Gutierrez venceu a concorrência, mas a obra foi paralisada após denúncias de irregularidades, como formação de cartel e ausência de estudo de impacto ambiental. Apesar das ações apresentadas pelo Ministério Público, a Secretaria Estadual de Ambiente (SEA) retomou o contrato.