O Rio e o modelo de cidade que secundariza a vida

O historiador e urbanista Guilherme Marques, mais conhecido como “Soninho”, esteve neste sábado, 16 de abril, no Curso Vito Giannotti de Comunicação Popular, promovido pelo Núcleo Piratininga de Comunicação – NPC. Após a aula que teve como foco as condições urbanas do Rio de Janeiro entre os anos 1930 e 1964, o Se a Cidade Fosse Nossa escutou o professor sobre o ponto de vista de três questões fundamentais para o Rio: habitação, situação ambiental da cidade e transporte.

Vila Autódromo – Fonte: Rádio Piratininga

Segundo Sonhinho, esses três tópicos – habitação, ambiente e transporte, têm uma história própria na cidade que acontece a partir do final do Século XIX, início do Século XX e, atualmente, a aplicação da política das gestões públicas chega a um limite de saturação e aprofundamento das péssimas condições de vida para muitas pessoas na cidade do Rio de Janeiro. Para ele, “os governos Paes e desde antes, o governo César Maia, talvez sejam o auge desse modelo tão perverso de cidade para o Rio de Janeiro”.

O desenvolvimento urbano do Rio desde a transformação da cidade colônia em cidade capitalista, se dá através de um pequeno núcleo rico, encontrado na zona sul, na área central da cidade e no início da zona norte, onde concentram local de moradia, emprego e estrutura urbana eficientes para os mais ricos, deixando fora deste núcleo condições similares de transporte, de emprego e de infraestrutura urbana, seja ela de saneamento, de saúde e educação. Desde então, se tem uma pequena expansão, principalmente, para a zona oeste, especialmente, para a Barra da Tijuca. “Ao mesmo tempo, ela cresce expulsando os pobres para regiões mais distantes desse núcleo rico e central da cidade”, completa.

As condições de transporte são completamente favorecedoras desse desenvolvimento desde o final do Século XIX, quando se tem o início da construção dos bondes elétricos para circularem na zona sul, em contrapartida, à escolha do trem a carvão e a vapor, muito mais poluente, para servir os trabalhadores da zona norte. E hoje, há uma nítida concentração e favorecimento de investimentos públicos, além da valorização das terras e dos negócios na Barra da Tijuca, reforçam essa tendência histórica. Afinal, a ligação da Barra para a zona sul é via metrô, enquanto o transporte para a zona norte e a oeste – em sua parte menos favorecida, pelos ônibus e BRTs. Novamente transportes poluentes e de pior qualidade.

“O transporte é um vetor de crescimento e de articulação da cidade, de acessibilidade e hoje ele é feito muitas vezes ao contrário – não favorecendo àqueles que mais precisam de sua eficiência. Mudam as linhas para que as pessoas tenham que pegar mais ônibus e comprar mais bilhetes que são pré-pagos e, por isso, favorece o cartel dos transportes e a esse modelo de cidade. Além disso, desfavorece o acesso dos pobres às áreas dos ricos, que querem mais é ver os pobres longe dali“.

O efeito dessa política provoca a necessidade de se pegar mais linhas e fazer mais baldeações. Assim, Soninho argumenta que o transporte no Rio, longe de passar por um lugar de solução dos problemas da cidade, os agrava e os acentua, como no caso da moradia. Portanto, as questões de habitação também são afetadas por essa mesma política de se beneficiar a parcela rica em contraponto aquela pobre e mais necessitada do apoio do estado. “A história do Rio de Janeiro, é uma história na qual não se tem políticas habitacionais. As políticas no Século XX foram irrisórias e atenderam, principalmente, a classe média e deixaram o pobre sem alternativa habitacional”, afirma.

Para o urbanista, o poder público permitiu com que os pobres construíssem suas casas em lugares onde não havia interesse direto da especulação imobiliária nem das empresas da construção civil. Essas eram áreas alagadas, morros ou locais muito distantes do centro da cidade. Além disso, “a política habitacional de fato que o poder público implementa desde o início do Século XX foi e é a remoção de pobres. Portanto, quando se teve alguma política de construção habitacional foi para remover pobres das áreas onde eles foram morar para ter acesso ao transporte, aos serviços urbanos e ao emprego”, completa.

A política de remoções é uma constante na cidade do Rio desde o Século XX.

Soninho lembra que o período entre década de 1950 a de 1970, ficou marcado por remoções e expulsão dos pobres de várias áreas da cidade, especialmente da zona sul, em torno da lagoa Rodrigo de Freitas, para a zona oeste e Cidade de Deus, sempre para lugares cada vez mais distantes. Remover pobres de áreas que se tornam possíveis locais de valorização, é também o centro da política habitacional que se tem hoje, como o que ocorre com a Vila Autódromo. Além disso, as políticas atuais como o “Minha casa, minha vida”, constroem habitações de baixa qualidade em locais com mínimas condições de infraestrutura, sem acesso à educação, à saúde, ao emprego e normalmente, sem acesso aos meios de transporte, em locais mais afastados possíveis na cidade. Os locais onde aconteceram exceções são lugares nos quais se teve um nível realmente grande de resistência, como parte dos moradores da Vila Autódromo que conseguiu ir para uma área mais próxima – Parque Carioca. Outro exemplo de resistência foi no centro, onde os moradores conseguiram ir para a região da Triagem e também, da Frei Caneca, perto do Sambódromo. Entretanto, eles foram para esses lugares graças a muita luta contra a remoção e de zonas centrais que dificultava ao poder público removê-los sem grandes explicações.

Segundo o historiador e urbanista, um tipo de remoção que acontece também como regra na cidade do Rio de Janeiro – a “não forçada”, passou a ser muito forte nas favelas e nas regiões valorizadas da cidade, principalmente, nas favelas com UPPs, é uma outra modalidade de remoção e que ficou muito no centro da política habitacional da cidade. Por isso, afirma Soninho, o programa “Minha casa, minha vida” não tem casa para ninguém. Ele atende a pessoas que foram removidas e não ao déficit habitacional.

Vidigal - alta valorização de áreas levam à remoção sem o uso da força

Vidigal – alta valorização de áreas levam à remoção sem o uso da força

O modelo de cidade implementado no Rio que visa expandir os lucros de determinadas empresas, também doadoras de campanha – como a Carvalho Hosken na Barra, do ponto de vista ambiental é um modelo trágico. Soninho denuncia que dessa forma “se expande a cidade para muito além da sua necessidade de expansão – impermeabilizando o solo, devastando áreas, onde ainda se tinha uma condição ambiental melhor. Devastando setores que viviam de produção agrícola, do uso mais sustentável do meio ambiente. Se faz isso o tempo todo na cidade, como agora de forma acelerada na zona oeste da cidade”.

Além disso, um segundo fator ambiental inserido neste tipo de política é o do próprio transporte. Se são áreas de rico, o transporte principal costuma ser o carro – altamente poluente. Se são áreas mais pobres, se têm um sistema de trem sucateado e a ausência quase completa do metrô, perto do crescimento viário da cidade. A prefeitura se vangloria do aumento do transporte de massas, mas esses são baseados nos BRTs, ou seja, viários e com mais queima de combustíveis fósseis e com isso, se acelera ainda mais o processo de degradação ambiental.

“Temos hoje, um problema ambiental grave, com mudanças climáticas acentuadas e em escala global e a cidade, simplesmente, fingindo que isso não existe. Ela acelera seu problema de extrato da questão ambiental – a despeito de toda a propaganda em torno da construção de uma ciclovia, como se isso fosse resolver algum problema”.

No Rio há um acelerado processo de degradação ambiental a partir de um projeto de cidade que ansioso em expulsar o pobre para cada vez mais longe desse núcleo rico, ao invés de trabalhar com a ideia de adensamento e ocupar regiões vazias como a central e a portuária, que poderiam ser áreas de moradia popular, estimula uma expansão da cidade, ambientalmente catastrófica. E isso, em um momento em que a questão ambiental também se apresenta assim em matéria global.

Dessa forma, a condição de cidade que temos hoje, em seu modelo de habitação; uma visão que despreza uma questão ambiental e que tem um modelo de transporte absurdo que apenas favorece às empresas de ônibus, é um modelo de cidade que já é marcada pela sua desigualdade, só faz aumentar esse fator. Aumentando cada vez a mercantilização da cidade e da vida. Além de dificultar o cotidiano daqueles que moram ou trabalham na cidade. Soninho ainda agrava a situação recordo o número gigantesco de trabalhadores que moram na região metropolitana e que, igualmente, não recebe qualquer investimento ou possui política da prefeitura para atenuar suas dificuldades de locomoção, ficando absolutamente secundarizado e servindo para garantir o lucro das empresas de ônibus, de barcas e similares. “O transporte sem qualidade transforma a moradia que já é distante, na prática, ainda mais longe”, completa.

Para concluir, o urbanista acredita que os cariocas já estão há muito insatisfeitos com as condições de vida que a cidade lhes confere, especialmente, em relação ao trânsito, ao clima e à habitação. Uma cidade que vai se tornando cada vez mais pouco amigável para seus moradores e trabalhadores e muito amigável para os negócios e lucros cada vez maiores de algumas grandes empresas que também financiam e apoiam boa parte dos políticos dessa mesma cidade.