Luta e dor, substantivos femininos

“Cidades Rebeldes e Espaços de Esperança” tem tarde do oito de março dedicada à causa feminista. No debate, “Ser mulher na cidade”, militantes de diversos movimentos, acadêmicas e artista discutem sobre dificuldades e entraves à condição da mulher no meio urbano. Momento também foi marcado por críticas à demolição da casa de Dona Penha, importante resistência da Vila Autódromo. No final da matéria, assista ao vídeo com o debate na íntegra.

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Renata Souza e Leandro Uchoas*

No palco, a diversidade feminina anunciava a segunda mesa do curso “Cidades Rebeldes – Espaços de Esperança”. Do início ao fim, o protagonismo feminino se fez presente, tanto na produção como na transmissão ao vivo do debate para as redes. Era o Dia Internacional das Mulheres, mas não havia qualquer motivo para celebração. Acabara de acontecer uma das mais emblemática ações de opressão ao gênero feminino no Rio de Janeiro, e as debatedoras da mesa “Ser mulher na cidade” não poderiam começar sua intervenção com outra abordagem.

Na comunidade de Vila Autódromo, a 40 quilômetros do Cine Odeon, onde se realizava o debate, uma tragédia anunciada se consolidava. A Prefeitura do Rio de Janeiro escolheu o Dia Internacional das Mulheres para demolir a casa de Maria da Penha, a Dona Penha. No mesmo dia, ela participaria deste mesmo debate, falando sobre sua luta contra a remoção da comunidade – a Vila Autódromo é referência de resistência no mundo inteiro. Também neste dia, Dona Penha receberia um prêmio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Mas logo pela manhã, teve que defender um dos direitos mais básicos do ser humano, que é o direito à moradia digna.

A ação não poderia ser mais simbólica. Maria da Penha também é o nome da lei que constitui o maior avanço da luta feminista na história recente do Brasil. E Dona Penha é uma liderança aguerrida, ciente da constante submissão do poder municipal aos interesses da especulação imobiliária. O prefeito Eduardo Paes, que já se comprometeu publicamente inúmeras vezes com uma postura mais republicana em relação à Vila Autódromo – sem nunca cumprir –, parece ter enviado seu recado amargo às feministas. Trata-se do mesmo prefeito que escolheu como seu sucessor, pré-candidato à Prefeitura do Rio pelo PMDB, o secretário Pedro Paulo, acusado de ter agredido sua ex-mulher por pelo menos duas vezes.

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Por conta desta ação trágica e emblemática, a mesa começou em clima de indignação. Márcia Tiburi foi a primeira a se posicionar. “É muito difícil fazer poesia em um dia em que a casa da Penha é derrubada, em pleno 8 de março. Precisamos refletir sobre o que fazer aqui, para que não fique sob o signo da impotência. A cidade que nós queremos não é a cidade onde se derruba as casas das pessoas e as deixa na rua. Esse foi um ato de terrorismo do Estado. Mesmo que não se permita que a gente chame de terrorismo”, disse.

Com longa trajetória na luta feminista, Liliana Maiques se emocionou ao falar do que ocorreu na Vila Autódromo. “O que eu sinto no dia de hoje é muita tristeza. E a gente tem que transformar essa dor e essa indignação em luta”, resumiu. Ela também aproveitou para se opor à pré-candidatura de Pedro Paulo à Prefeitura. “Violência contra a mulher não é o Rio que a gente quer. Fora Pedro Paulo!”

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Medo na cidade

Houve uma significativa conversa sobre a dificuldade da vida na cidade para as mulheres. Na opinião de Márcia Tiburi, “a cidade é um espaço contraditoriamente selvagem para a vida das mulheres. No Brasil, a violência contra a mulher é muito forte. E a gente vive dentro da cidade a experiência do medo. Eu não vivo muito esta situação, e não me coloco em situações de risco. Mas mesmo quando eu me ponho a caminhar pela rua, eu sinto medo”.

Na tentativa de entender como a cidade se apresenta hostil às mulheres, a filósofa colocou que o direito à cidade passa também direito visual à cidade, considerando elementos como a força da pichação, a arquitetura excludente, o status quo visual e como estes elementos dialogam com a experiência da mulher no meio urbano, visto que ela é, também, um ser qualificado por sua aparência. Para ela, este ‘status quo visual’ aplicado à arquitetura se materializa no Rio de Janeiro nas obras olímpicas, através de uma homogenização e roupagem urbana que mascara a cidade como ela é de fato. Márcia propôs, ainda, que ao final do curso, todos fossem à Vila Autódromo prestar solidariedade.

A historiadora Marcela Lisboa resumiu o sentimento. “A gente entende que a violência contra a mulher sempre esteve presente. Faz parte de nossa história de vida, principalmente quando se trata da mulher negra”, disse. Ela contou parte da história da formação da cidade do Rio de Janeiro, e as seguidas situações de opressão às minorias que constituíram esse trajeto rumo à metrópole de hoje. Marcela mencionou uma lista de escritoras mulheres que deveriam ser mais conhecidas. A cantora Clarice Falcão também contou algumas histórias pessoais que retratam a dificuldade de uma mulher viver no Rio sem medo de ser vítima de distintas violências.

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Mulheres negras

Marcela também lembrou que as dificuldades das mulheres são maiores quando são negras. “A invisibilidade também nos mata, todos os dias. A gente teve a campanha #AgoraQueSãoElas, mas onde estavam as mulheres negras? A gente tem que discutir a realidade em que nós, mulheres negras, somos maioria e somos invisíveis”, disse ela, lembrando que as mulheres negras têm 34% de chance de contrair doenças após estupro, já que há limites no acesso a um tratamento adequado no sistema público de saúde.

Liliana lembrou ainda do andamento da CPI do Aborto, na Alerj – um ataque direto ao direito das mulheres à prática abortiva. “Existe uma dimensão do patriarcado que a gente tem que resgatar que é o controle dos corpos”, lembrou. Na CPI, não foi ouvida uma só mulher, em toda a sua constituição. O relatório cria um constrangimento mesmo para as mulheres que têm aborto espontâneo pois impõe à rede de saúde que comunique à Delegacia de Polícia qualquer tratamento em mulher que tenha feito aborto.

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Por fim, as mulheres demonstraram otimismo e esperança quanto ao futuro das lutas feministas no Rio de Janeiro. “Não sou Martin Luther King, mas eu tenho um sonho. E o meu sonho é que a gente possa incendiar essa cidade do Rio de Janeiro este ano.”, disse Liliana, frisando a importância dos atos de 8 de março para que não se perca a forte mobilização da primavera das mulheres. E Marcela, se referindo à resistência da população negra, sintetizou o sentimento das mulheres durante o curso. “A gente chegou, botou o pé aqui dentro, e agora pra sair vai ser difícil”. Oxalá ela tenha razão.

*Colaborou Beatriz Reis

Fotos: Katiana Tortorelli, Fernanda Merolla e Otavio Martins

Assista ao debate na íntegra:

Confia a programação desta quarta:

> 14h: Mesa “Justiça Socioambiental” [ENTRADA LIVRE E GRATUITA]

– Alexandre Araújo Costa (físico, professor da UECE e membro do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas)
– Henri Acselrad (economista, professor adjunto do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ, foi coordenador do projeto “Mapa da Justiça Ambiental no Estado do Rio de Janeiro”)
– Alexandre Anderson (pescador, Associação Homens e Mulheres do Mar – AHOMAR)
– Ana Lúcia Britto (geógrafa, professora associada da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e ProUrbe da UFRJ)
– Mediador: BNegão

> 19h: Conferência “As raízes urbanas das crises capitalistas

– David Harvey (geógrafo, professor de antropologia da pós-graduação da City University of New York – CUNY)
– Provocadores: Sandra Quintela (economista, diretora do Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul – PACS e integrante da Rede Jubileu Sul Américas) e Fundação Lauro Campos

Ainda há ingressos para as palestras de hoje (9) e amanhã (10), de David Harvey: 

9/3 – Conferência “As raízes urbanas das crises capitalistas”
19h: David Harvey, Juliano Medeiros e Sandra Quintela
>>> COMPRE AQUI: http://bit.ly/1M3mFBl

10/03 – Conferência “A criação dos bens comuns urbanos”
19h: David Harvey, Mônica Francisco e Edmilson Rodrigues
>>> COMPRE AQUI: http://bit.ly/1SvfHeW

assista online: www.seacidadefossenossa.com.br