Justiça SocioAmbiental – muito além da falta d´água

“Esta escassez seria uma falta de água condicionada por relações de poder. É o que explica que, dentro de uma mesma cidade, existam locais com oferta abundante de água e outras com acesso insuficiente até para as necessidades básicas, com esgoto a céu aberto.” Ana Lúcia Britto

Justiça Socio Ambiental

Por Beatriz Reis

A mesa da tarde do segundo dia do curso “Cidades Rebeldes – Espaços de Esperança” trouxe para o debate da cidade o tema “Justiça Socioambiental”. BNegão iniciou a conversa com uma provocação à geógrafa Ana Lúcia Britto, que foi convidada a comentar a gestão dos recursos hídricos e as particularidades do Rio para além da problemática das enchentes.

No âmbito da Ecologia Política, Ana apresentou a ideia de escassez hidrossocial ao argumentar que os problemas de saneamento enfrentados pelo Rio não são fruto apenas de questões de infraestrutura técnica, mas de vontade e disputa política. Por isso, segundo ela, é de extrema importância atentar para os atores que participam da gestão desses sistemas e como eles tomam suas decisões. “Esta escassez seria uma falta de água condicionada por relações de poder. É o que explica que, dentro de uma mesma cidade, existam locais com oferta abundante de água e outras com acesso insuficiente até para as necessidades básicas, com esgoto a céu aberto.” Fica claro que o sistema de distribuição de água reflete e aprofunda a desigualdade social, mas o problema não se esgota aí: Em parte do Rio de Janeiro, com destaque hoje para a zona oeste, são empresas privadas as incumbidas de captar e tratar esgoto, condicionando um serviço público básico aos interesses privados.

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Desastre ambiental tem cor e classe

O economista Henri Acselrad lembra que a situação de vulnerabilidade de uma parcela da população à doenças infecciosas está ligada ao fato de haver uma classe que costuma pagar pelos danos ambientais de uma ideia liberal de progresso. Nisso consiste o conceito de racismo ambiental, que se confirma no Brasil através de casos como o da Samarco/Vale, considerando que, por exemplo, o o distrito Bento Rodrigues, em Mariana – MG, um dos principais atingidos pela lama, é composto em sua maioria por uma população auto-declarada não-branca. Esta desigualdade ambiental se reproduz junto à logica da cidade negócio, que visa tornar as cidades competitivas para investimentos privados, gerando a necessidade de flexibilizar leis ambientais a fim de receber empreendimentos. No Rio, podemos citar os conflitos envolvendo o campo de golfe na Barra, o Comperj e a TKCsa.

O racismo ambiental no Rio também se materializa nos conflitos envolvendo as comunidades pesqueiras da Baía de Guanabara. Alexandre Anderson, pescador da Associação Homens e Mulheres do Mar – AHOMAR expõe a situação insustentável da Praia das Pedrinhas, em São Gonçalo, onde os moradores convivem com valões que desembocam no mar sem devido tratamento, prejudicando a pesca e a qualidade de vida. Os ribeirinhos da Baía de Guanabara, descendentes de indígenas e quilombolas, vem enfrentando duros processos de remoção decorrentes do crescimento da indústria petrolífera e off-shore. “Éramos 23 mil. Hoje somos 6 mil tentando resistir. Será que o petróleo dessa forma é interessante para nós? É necessária a poluição das águas, a poluição sonora e luminosa que prejudica a pesca?” Argumenta Alexandre ao lembrar do recente leilão do pré-sal, estratégia que marca a capacidade das forças globais atingirem a lógica e a qualidade de vida local.

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O físico Alexandre Araújo resume a necessidade da resistência. “Não sejamos tijolos no muro. Lutemos juntos para quebrar o muro.” Para ele, a trajetória do homem contemporâneo é certa para o desastre. Nosso modo de produção demanda um consumo elevado de minério, utiliza mais água doce do que o ciclo hidrológico é capaz de repor e produz uma quantidade de energia equivalente a quatro bombas de Hiroshima por segundo, sem esquecer que esta força permanece na Terra, armazenada em forma de calor. Estas são manifestações de um sistema econômico que impõe, e busca a qualquer custo reproduzir, um modo de vida insustentável. O crime ambiental da Samarco/Vale em Mariana também foi lembrado por ele, que argumenta se tratar do fruto da aceleração da demanda por minério de ferro, combinada à individualidade do pensamento vigente, que concentra os recursos nas mãos de poucos e socializa as consequências ambientais nas costas dos mais pobres.

E se a cidade fosse nossa?

“Quebro a corrente onde passo, implanto a minha semente. Gafanhotos nunca tomam de quem tem. Predadores, senhores que mentem, esperem sentados a rendição. Nossa vitória não será por acidente” – Planet Hemp

Para mudar a realidade, Henri Acselrad e Ana Lúcia Britto concordam que é urgente a democratização dos processos de decisão que envolvem projetos ambientais em escala local e nacional. Para Henri, também se faz necessário confrontar a visão dominante acerca da água na mídia. É preciso que a população esteja familiarizada com os discursos que circulam os conflitos por água. E mais do que nunca, para Ana Lúcia Britto, precisamos questionar esse modelo que favorece o interesse das empresas privadas e cobrar a gerência pública dos serviços de abastecimento de água e tratamento de esgoto.

Alexandre Araújo defende a necessidade de se reinventar a indústria como ela existe hoje, para que ela se engaje no reaproveitamento do que já entrou no sistema natural, com jornadas de trabalho reduzidas, diminuição da demanda energética e fontes de energia socioambientalmente justas e viáveis. “Nunca a igualdade foi tão necessária para a nossa sobrevivência. Precisamos de uma sociedade capaz de prover o necessário para todos dentro dos limites de matéria e energia disponíveis.” Para ele, passou o tempo em que o movimento ambientalista podia ser apenas defensor da natureza, hoje ele precisa ser anticapitalista e admitir que nós, humanos, somos parte constituinte da natureza.

É notório que a busca pela ideia atual de progresso interage de forma violenta não apenas com o ambiente natural mas também com as comunidade que seguem a racionalidade da natureza e não se diferenciam dela, se declarando parte dela: as comunidades tradicionais. O pescador Alexandre Anderson ressalta a resistência do movimento ribeirinho da Baía de Guanabara. Por lá, a luta está viva e carrega sua ancestralidade indígena e quilombola através do saber popular. Preservar as baías é preservar cultura, saber tradicional e modos de vida que enxergam na natureza algo mais do que apenas recursos. Existe peixe, vida e solução na Baía de Guanabara. O que falta é a vontade política de se unir à população que se interessa em preservá-la e não aos grupos econômicos que não se incomodam em poluí-la.

A luta por justiça socioambiental se apresenta cada vez mais urgente. E BNegão resume o sentimento que paira sobre o Odeon ao fechar a mesa declamando um verso de ‘Stab’ do Planet Hemp: Quebro a corrente onde passo, implanto a minha semente. Gafanhotos nunca tomam de quem tem. Predadores, senhores que mentem, esperem sentados a rendição. Nossa vitória não será por acidente.

Fotos: Katiana Tortorelli, Fernanda Merolla e Otavio Martins

NESTA SEXTA, 11, A PARTIR DAS 19H, AULA PÚBLICA COM DAVID HARVEY E MARCELO FREIXO NA CINELÂNDIA!

Assista ao debate sobre Justiça Ambiental na íntegra: