‘Enquanto eles capitalizam a realidade, nós socializamos sonhos’

Na tarde de 10 de março, o curso Cidades Rebeldes e Espaços de Esperança recebeu o poeta Sérgio Vaz (poeta, fundador da Cooperativa Cultura da Periferia – Cooperifa), Lúcio Gregori (engenheiro civil, ex-secretario municipal de transportes de São Paulo entre 1990 a 1992 quando idealizou e elaborou o projeto de Tarifa Zero) e Lurdinha (Movimento Nacional de Luta pela Moradia – MNLM), em mesa mediada por Júlio Barroso, produtor cultural. Por conta da densidade e da diversidade das falas, optou-se por um texto para cada um dos participantes.  Também participou Adauto Cardoso (urbanista, professor adjunto do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ).
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Por Bruno Villa
Quando criança, Sérgio Vaz acreditava que a ausência de pavimentação nas ruas do bairro onde morava era o motivo de o planeta se chamar terra. A pobreza no Parque Santo Antônio, localizado na periferia de São Paulo, se impunha e era compartilhada de tal forma por todos que iludia o olhar do menino. O Parque Santo Antônio era do tamanho do mundo de Sérgio. Somente quando se atreveu a levar seus pés para além das fronteiras do chão de barro, o garoto descobriu o desencanto da  violência de viver numa cidade partida e negada a ele e aos seus.
“Me senti pobre quando fui ao Centro, num bairro que parecia a Lapa. Quando vi as luzes, as pessoas bebendo, ouvindo música, uma livraria, descobri que era pobre. É como se morasse em outro país. Comecei a olhar e a pensar o porquê de não ter tudo aquilo em meu bairro. E percebi que, na verdade, não era para ter. Não é para ter porque moramos no porão da cidade. No porão do navio negreiro, de onde saímos para trabalhar. A cidade de São Paulo me dói. Ela não é só capitalista, ela é nazista”, disse.
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A poesia, o hip hop e a raiva, não necessariamente nesse ordem, levaram Sérgio a imaginar outros versos para o Parque Santo Antônio. Com a ajuda de alguns moradores, ele transformou o bar frequentado pela comunidade num centro cultural. “A gente tinha ali um bar e uma igreja evangélica. O crente só vê o demônio. E eu só vejo poesia. Na verdade, o bar sempre foi o nosso centro cultural, só que a gente não sabia. Ali as pessoas se encontravam, falavam do que acontecia no dia a dia. Aos poucos, começamos a mudar o bar, e o bar foi mudando as pessoas”, contou.
A experiência de construir coletivamente um espaço de solidariedade e arte no planeta de terra do Parque Santo Antônio, que levou à criação da Cooperativa Cultura da Periferia, foi lembrada por Sérgio durante a mesa redonda “Urbanismo de mercado”, realizada na tarde de quinta-feira (09) no Cine Odeon, que também contou com a participação do urbanista Adalto Cardoso, do engenheiro civil Lúcio Gregori e de Lurdinha, do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM) . O evento foi parte do curso “Cidades Rebeldes e Espaços de Esperança”, organizado pelo movimento Se a Cidade Fosse Nossa. “A arte tem o poder de revolucionar a pessoa. Aquele que quer mudar a realidade tem que mudar a si mesmo. A arte tem o papel de tirar a pessoa da paralisia humana. Arte na frente como farol”, afirmou.
Voltemos ao bar, que passou a ter cerveja, petiscos de verso e prosa, cinema, teatro, música… Sérgio lembrou o dia em que um idoso, encucado com o rebuliço do povo no meio da rua, perguntou-lhe o que estava acontecendo. Ao saber que haveria ali uma apresentação de teatro, o homem olhou em volta, estranhou tudo aquilo e perguntou onde efetivamente estava o teatro. Ele esperava encontrar um prédio, teatro de tijolo, cimento e reboco, em vez de gente circulando. Desconfiou, mas foi para casa e voltou com a esposa para conferir. A mulher acabou aos risos, e o marido, às lágrimas.
“Depois que terminou a apresentação, ele chorou e disse: ‘Sérgio, a gente poderia ter morrido sem nunca ter visto o teatro’. Um país onde uma pessoa de 60 anos nunca foi ao teatro não deveria ter alvará de funcionamento”, lamentou.
Para o poeta, arte é subversão, protesto. Ela precisa amplificar as vozes daqueles que gritam, mas não são ouvidos. Dos sobreviventes que não podem frequentar o teatro, cinema, bibliotecas. Sérgio recitou um trecho de um poema de Ferreira Gullar: “só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não têm voz”. E concluiu: “Enquanto eles capitalizam a realidade, nós socializamos sonhos”.
Como o canto de Sérgio arrasta consigo pessoas que não têm voz, é justo, justíssimo, que ele cante seus versos:

Família vende tudo

Vendo barraco de madeira
com vista para o córrego
com água e esgoto desencanado
dois por quatro, sem tramela
com buraco
para o frio em entrar.

Devido a pressão
vendo jogo de vazias panelas
frigideira sem óleo
vida sem tempero
ronco de barriga
insônia da miséria.

Vendo choro de mãe
com criança no colo
na fila do hospital
dessa vida sem bula
sem cura
sem melhoral.

Vendo abandono de pai:
“Ave-Maria, pai nosso que estai no céu,
como batia, esse filho da mãe!”

Vendo natal sem brinquedo
sem bola nem boneca
uma foto amarelada
do tio Noel
puxando trenó sem cavalo
nas ruas da cidade.

Vendo vaga em escola ruim
de criança que cresce sem creche,
sem merenda, sem leque
raiz dos problemas
de todos meu pobrema.
do destino em xeque.

Vendo sapato furado,
chinelo de dedo e calos nos pés.

Vendo fé cega,
lágrimas enferrujadas
calos nas mãos
de orações não atendidas.

Vendo anjo da guarda
surdo-mudo
sem experiência
contra a pobreza.

Vendo um corpo falido
cheio de rugas
que se abriram como estradas
nessa sina sem rumo, sem saída,
de vida inteira, quebrada.

Vendo rim
fígado, coração
e sonhos dormidos.

Vendo alegria de ano novo
primeiro amor, nunca usado.

Vendo a porra toda.

Vendo desemprego, unha desfeita,
dores nas costas, no peito e dores de amores.

Vendo menina grávida
guarda-roupa sem roupa
vendo menino
no semáforo
equilibrando o limão
da vida amarga.

Vendo bala perdida
que encontra sempre a molecada
nas esquinas escuras
desse destino claro.

Vendo samba de Adoniran
onde a favela fica bonita
com saudosa maloca e tudo,
já tem luz elétrica esse lugar escuro
onde o político se ilumina.

Vendo futuro
que não vale nada
por isso leva
o passado de presente.

Vendo racismo
essa escola de preto no branco
que desfila na avenida Brasil
o ano inteiro depois do carnaval.

Tinha até sorriso e felicidade pra vender
mas como ninguém nunca usou…
se perdeu nos becos da favela.

Vendo alegria,
mas tem que levar a tristeza também.

Família vende tudo,
antes que o incêndio
acabe com ela.

Assista ao debate na íntegra: