Da cidade-negócio à cidade de direitos

A conferência de abertura do curso Cidades Rebeldes e Espaços de Esperança –  “Direito à cidade” – recebeu o professor David Harvey e teve na mesa Raquel Rolnik e Ermínia Maricato. No final da matéria, o vídeo na íntegra com a aula.

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Bruno Villa

Vila Autódromo não se rendeu.

Pedimos licença à memória de Euclides da Cunha para adaptar os horrores vividos no Rio de Janeiro do século XXI à narrativa sobre a derradeira batalha travada pelos valentes do arraial de Canudos contra o Exército brasileiro no sertão da Bahia, em 1897.

Há um pedacinho de Canudos na Vila Autódromo. Os sertanejos do Conselheiro foram esmagados pela dita modernização republicana. A Vila Autódromo desafiou os tratores e escavadeiras do mito do progresso olímpico.

Em Canudos, “eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados”. Diante de dona Maria da Penha, símbolo da resistência e da luta pelo direito à moradia em Vila Autódromo, batiam os coturnos da tropa de choque enviada pela prefeitura.

A casa ​da ​dona Maria foi demolida na mesma manhã em que centenas de pessoas lotaram o Cine Odeon, na Cinelândia, para participar do curso “Cidades rebeldes e espaços de esperança”, realizado pelo Se a Cidade Fosse Nossa, e debater a cidade e a violência da apropriação dos espaços públicos pelo capital imobiliário. Neste 8 de março, Dia Internacional ​de Luta ​da​s​ Mulher​es​, dona Maria da Penha resistiu. É, antes de tudo, uma forte.

“Viva Vila Autódromo! Viva Vila Autódromo!”

O grito ecoou logo após o anúncio do ataque da prefeitura à comunidade. Minutos antes, um dos palestrantes que abriram o evento, o geógrafo britânico David Harvey, autor do livro “Cidades rebeldes“, falou como o capitalismo em crise tenta resolver seus problemas através do avanço sobre as cidades para transformá-las em ativos financeiros. É a lógica de que a cidade não deve servir para as pessoas, mas para os negócios. As provocadoras do debate foram a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik e a urbanista Ermínia Maricato.

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Harvey nos ajuda a entender as transformações por que passa o Rio. A cidade, que recebeu diversos megaeventos nos últimos anos, o mais importante será as Olimpíadas, despertou o interesse de grandes grupos empresariais que, em associação com o poder público e grupos de comunicação, fizeram do espaço público fonte de lucro.

“A preocupação é construir uma cidade em que se possa especular, em vez de construir cidades decentes para as pessoas viverem. O capital global depende pesadamente da urbanização para se estabilizar. A resposta à crise de 2008 foi criar dinheiro e pressão pela valorização do dinheiro. O capital está com dificuldade de encontrar lugares lucrativos para sua valorização, e a urbanização é um desses lugares”, explicou.

Direito e mercadoria

Raquel Rolnik denunciou que o direito de morar foi transformado em ativo financeiro, como demonstra a remoção dos moradores da Vila Autódromo e de tantas comunidades do Rio. Para a urbanista, a capital carioca é emblemática por mostrar com atua o complexo imobiliário-financeiro que reúne empresas, poder público e meios de comunicação.

“No caso do Rio de Janeiro, o formato do complexo imobiliário-financeiro se torna forma viva do capital interessado na renda e no juros. Esse capital toma e se apropria da produção do espaço constituído, da política urbana e mimetiza o Estado para conduzir e liderar o processo de transformação da cidade, derrotando a luta pela reforma urbana”, avaliou.

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Raquel usou o projeto de revitalização da Zona Portuária, o chamado Porto Maravilha, como exemplo. “O porto mostra como as grandes empreiteiras – que historicamente já dominavam as políticas urbanas da cidade ao financiar campanhas – definem obras e as as relações de reprodução do poder”, disse. A urbanista lembrou que as empresas de comunicação não só apresentam essa ficção de cidade como participam dos negócios, como ocorre com a Fundação Roberto Marinho no Museu do Amanhã.

Batalha na comunicação

Ermínia Maricato falou sobre a urgência da luta contra o que chamou de analfabetismo urbanístico. Segundo ela, é necessário um esforço pedagógico “paulo freireano”, trabalho de base, para debater com a classe trabalhadora a dinâmica urbana e as relações de poder na cidade.

“Se você achar que a luta está somente no chão da fábrica, você deixa de lutar por uma mudança nas condições de vida e no campo do imaginário e da utopia. Às vezes há aumento salarial que é compensado no aumento da passagem. Estamos falando da cidade da classe trabalhadora ou do capital? É muito importante conhecer a cidade e as forças que a controlam.”

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A urbanista destacou a importância do aprofundamento das discussões sobre a democratização dos meios de comunicação para garantir a diversidades de discursos e a desmistificação das relações de força na produção do cotidiano urbano. “Quando a mídia fala da cidade, ela não fala da cidade trabalhadora, mas da cidade do capital. Precisamos derrubar essa representação fictícia da cidade. Nós no Brasil temos que enfrentar a questão da comunicação”, argumentou.

Espaço de esperança

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As palestrantes ressaltaram a importância de espaços como o organizado pelo Se a Cidade Fosse Nossa não só para elaborar críticas, mas para pensar coletivamente alternativas para a vida nas cidades. Novas formas de conceber as cidades rebeldes para além da lógica do sistema capitalista.

“Estou aqui não só pelo prazer de debater com Ermínia e Harvey, mas porque acredito que nada deve parecer impossível de mudar. Este é um espaço de crítica e de construção de esperanças. Se a luta pela reforma urbana sofreu a derrota para o complexo imobiliário-financeiro, estamos construindo uma nova frente na luta pelo direito à cidade”, concluiu Rolnik.

Fotos: Katiana Tortorelli, Fernanda Merolla e Otavio Martins

Assista a conferência na íntegra:

Nesta quarta, a programação tem início às 9h com a aula “Rio de Janeiro: o impacto dos megaeventos” [ENTRADA LIVRE E GRATUITA], com Carlos Vainer (urbanista, professor titular do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ). Assista online: www.seacidadefossenossa.com.br