A resistência é doce e jovem

No quarto e último dia do curso “Cidades Rebeldes e Espaços de Esperança”, o público do Odeon recebeu quatro representantes de movimentos sociais que nos últimos anos desempenham papel relevante nas lutas coletivas. A mediação do encontro ficou por conta da jornalista Flávia Oliveira. No final da matéria, assista ao debate na íntegra.

movimentos sociais

Por Leandro Uchoas

Já não é mais segredo para ninguém. Desde a primavera de rebeldia de 2013, os jovens se acostumaram com as ruas. Sua indignação recebeu cores novas, formatos renovados, e ganhou o país. Nos últimos anos, novos movimentos surgiram no Brasil contra as tantas injustiças que ainda desonram esta geração. Em geral, apresentaram formas absolutamente renovadas de atuação, trabalhando mais o lúdico, utilizando elementos culturais. E a ousadia também se apresentou na forma destes movimentos de se organizar.

No quarto dia do curso “Cidades Rebeldes – Espaços de Esperança”, quatro destes movimentos se reuniram no palco do Odeon para discutir sua estratégia e suas peculiaridades. Estavam presentes o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), o Ocupe Estelita, o Amanhecer Contra a Redução e o Ocupa Escola. Representando as organizações, quatro lideranças bastante jovens – Rafaela Boani, do Ocupa Escola, por exemplo, tem apenas 16 anos.

Rafaela

As falas foram repletas de sentimento. Rafaela contou sobre o entusiasmo dos primeiros momentos da mobilização, e como uma juventude com pouca formação política foi construindo, com muito engajamento e seriedade, um movimento que deixou o país atento e boquiaberto. O Ocupa Escola se mobilizou contra a reformulação educacional proposta pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), que causaria o fechamento de muitas escolas. Mais de 100 unidades foram ocupadas, até que o governador recuasse da proposta.

Rafaela considera que as coisas mudaram muito, nas escolas, depois da mobilização. “As coisas já começaram a mudar na relação da diretoria com a gente. Eles tratam a gente melhor, com mais respeito”, disse. A formação política dos estudantes também foi radicalmente aprofundada com a mobilização. Eles passaram a participar, em seguida, de outras pautas da cidade. Para Rafaela, os estudantes estão se preparando para seguir lutando por melhor Educação no país nos próximos anos, e novas necessidades de atuação irão surgir.

O primeiro a ressaltar as diferenças na forma de organização foi Vitor Guimarães, referência do MTST no Rio de Janeiro. “Nós estamos aqui em uma posição de organização mais tradicional, um pouco mais verticalizada. Mas hoje o formato horizontalizado responde a muita gente. As pessoas se identificam, querem ir”, disse. Rowena Oliveira, do Amanhecer, fez questão de ressaltar que o coletivo se formou de forma horizontal, com lideranças que se projetam de acordo com a demanda. Nos novos movimentos, este parece ser o formato predominante, assim como em outros países.
MTST

Rowena também ressaltou um elemento de unidade interessante. “Em todas as nossas falas, utilizamos a palavra ‘ocupar’. Todos nós trabalhamos com a ideia de ocupação”. De fato, duas das organizações já trazem o verbo em seu próprio nome – um deles ocupando escolas, o outro uma comunidade. O MTST faz das ocupações sua estratégia de pressão pela reforma urbana, e de democratização do tecido social. E o Amanhecer ocupou ruas e praças do país inteiro em defesa da manutenção dos atuais níveis de maioridade penal.

Contra a redução

O movimento representado por Rowena teve uma ascensão rápida, dando capilaridade a um amplo setor da sociedade que se preocupava com a discussão, na Câmara dos Deputados, da redução da maioridade penal para 16 anos. Inspirados no movimento uruguaio “No A La Barra”, o Amanhecer reuniu uma infinidade de jovens. A proposta era enfeitar praças e ruas durante a madrugada, com símbolos e cartazes que se opunham à redução. Várias cidades do Brasil amanheceram, em alguns lugares, enfeitadas pela campanha.

Rowena

No auge, o movimento conseguiu realizar um festival imenso, que atraiu mais de 20 mil pessoas. Foram mais de 80 atrações, em cinco espaços simultâneos no centro do Rio de Janeiro. “Quando eu vi todas aquelas pessoas, eu pensei que também queria fazer parte dessa transformação. Isso me comoveu”, disse Rowena. Em todo o Brasil, mais de duas mil pessoas se inscreveram para construir a mobilização. Eles ainda organizaram o “rolezinho contra a redução”, e ajudaram a construir o festival Todo Mundo Tem Direitos, que aconteceu no Rio de Janeiro em 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

Com um tom de fala apaixonado, Vitor estabeleceu relações entre o levante desses movimentos e a grande mobilização de junho de 2013. Para ele, movimentos que já vinham se organizando há muitos anos conseguiram, naquele evento, ganhar em expressão e organicidade. “A gente nem sempre consegue analisar o que deu certo e o que deu errado em 2013. Por exemplo, a Mídia Ninja conseguiu estourar com os eventos de junho. Também aconteceu com o MTST de São Paulo. No Rio de Janeiro, a gente não conseguiu estourar, porque não tinha trabalho histórico até aquele momento”, analisou.

Especulação imobiliária

Leandro Cisneiros

A mobilização do Ocupe Estelita, em Recife, é ainda anterior àquelas manifestações de 2013. Já no ano anterior, o embrião da resistência era construído, quando o governo anunciou o projeto Nova Estelita, favorecendo a especulação imobiliária. “Recife é a terceira cidade em arranha-céus do Brasil. Eles propunham a construção de um condomínio de luxo empresarial. Um mega-empreendimento para aqueles tradicionais 1% mais ricos da sociedade. Era um projeto muito agressivo – uma violência contra a cidade. A gente começou, então, a se articular”, disse Leonardo Cisneiros, que representava o movimento.

Ele também ressaltou o papel importante que as redes sociais cumpriram, de mobilizar e unificar a estratégia dos apoiadores do Ocupe Estelita. Teriam cumprido, também, um papel de contraponto às posições da mídia tradicional. “O massacre da mídia foi muito forte. Lá isso é um problema bem sério. As redes sociais juntaram gente de uma formação muito interessante. Acabei aprendendo muito com as pessoas que eles trouxeram. Criou-se um discurso muito interessante”, disse Leonardo.

Tanto Vitor quanto Rowena incluíram, em suas intervenções, citações de poemas que sublinhassem elementos de suas falas. De forma intencional ou não, estavam ressaltando a própria estratégia de seus coletivos, que é incluir o lúdico neste formato renovado de ativismo político. E as palavras citadas eram belíssimas. “Brasil, tu te tornas eternamente responsável por aquilo que pões em cativeiro. Eu sei que assusta perder os privilégios”, clamou Rowena, em forma de poema, que terminava lacônico: “Ainda é branca a democracia”. A poesia foi como o debate da tarde. Inspiradora. Há de nutrir as lutas que essa geração animadora há de travar no futuro.

Assista ao debate na íntegra (início no minuto 30):