A potência das culturas de frestas

Simas e Facina

Por Beatriz Reis

“Uma cidade é feita de muitas cidades.” Luis Antônio Simas, historiador que une em seus estudos a experiência em terreiros com a admiração pelo samba, escolheu esta frase de Marcos Rebello para iniciar a mesa “modos de fazer no Rio”, cuja proposta era debater as práticas culturais daqueles que tem a resistência como modo de vida. Ocorrida na manhã do último dia do curso “Cidades Rebeldes e Espaços de Esperança”, esta mesa trouxe a necessidade de aprendermos com a potencialidade das diferentes formas de existir na cidade.

E se nossa cidade é composta por muitas outras, é evidente que uma delas é profundamente negra em sua cultura, fruto da diáspora africana que se concretizou no Rio através do maior porto de entrada de escravizados da história humana, o porto do Valongo. Não coincidentemente, o cais do Valongo se tornou símbolo da região portuária do Rio, marcada pela resistência da população negra e que hoje sofre profundas alterações em sua forma, através de uma reforma urbana que se pretende “revitalizadora”. Se os agentes institucionais de transformação do espaço pensam que não há vida nesta área da cidade, os palestrantes desta mesa vieram para mostrar que estão muito enganados.

E o que confere vida pulsante a essa e tantas outras áreas da cidade está no caráter resistente das manifestações culturais que ali se iniciaram. Para Simas, a escravidão, elemento fundante da cidade do Rio, é em si uma experiência de morte. Os negros aqui chegados tinham duas opções: morrer ou ressuscitar reinventando a vida. E é justamente esta reinvenção, que partiu da necessidade de reconstruir noções de pertencimento, criar novos laços associativos e novos elos comunitários, que faz das práticas sociais negras uma marca potente do Rio, de uma forma de existir no Rio.

É esta resistência que explica o surgimento dos zungus, da capoeira, das casas de culto, do samba e do funk. Diz-se que a roda precede o samba. Que ele só se tornou possível pela reunião, pelo encontro daqueles que reinventam a vida nas frestas, que fazem muito com pouco e preenchem de vida o pouco espaço que tem disponível. O problema é que as barreiras que fizeram da resistência uma necessidade não foram extintas com o passar do tempo. Elas foram complexificadas e enraizadas a tal ponto que mesmo se tratando de uma cidade que reconhece estas manifestações culturais como suas, os seus autores permanecem invisibilizados, representados na figura do outro.

Simas

Simas defende, ainda, que a cidade pensada como negócio intensifica essa barreira, visto que as transformações que vemos no Rio de hoje não se diferenciam das reformas de Pereira Passos ou Carlos Sampaio, no sentido da produção de uma cidade segregada e homogeneizada. O embate entre a cidade que se queria europeia e as outras cidades que pulsavam na fresta se mantém vivo. Desde lá, a resistência negra incomoda e tem suas práticas sociais reprimidas. A invasão dos terreiros, o desmonte dos cortiços, a perseguição à capoeira e ao samba, hoje se materializam de uma forma diferente, muito mais complexa, através dos mecanismos de criminalização da pobreza.

Apesar disso, é preciso acreditar na rebeldia: “a historia do Rio de Janeiro não me permite o pessimismo.” Ele argumenta que nada disso estava no script. Não era para acontecer a roda, a gira de santo, o carnaval e nem mesmo esta mesa. A ameaça de morte do povo negro está para além da escravidão, está no planejamento da cidade voltado para o embranquecimento, está na cidade que não promove o encontro, que se preocupa mais com a circulação de carga e mercadoria do que de pessoas. “Entre a chibata e o caixão fomos capazes de reinventar a vida. Transformar a chibata de bater no lombo, em baqueta de bater no couro.”

O encantamento das cidades

É evidente que o povo negro resiste com o corpo e isso traz consigo discursos, elabora gramáticas que levam recados. Porém, o racismo epistemológico com o qual se olha a cidade vê esse povo como incapaz de produzir pensamento sofisticado, olhares insinuantes sobre o mundo, riqueza simbólica, cultural e material. Para Luiz Rufino, pedagogo e estudioso do jongo, o lugar de subalternidade impede a percepção plena do encantamento que envolve a prática e criação da ginga, que nada mais é do que a forma cotidiana de reinvenção da vida. “A cidade carece de desencantamento, para pensar a cidade que é praticada. A ginga nasce da fresta, do entre-lugar.”

De certa forma, Simas e Rufino concordam que é valioso trazer a cosmovisão das religiões de matriz africana para uma leitura da cidade. E por que não ressaltar a sabedoria do caboclo de umbanda, por exemplo? Trata-se de produção de conhecimento através da cultura popular. Para vislumbrar uma nova realidade é primordial chamar atenção para os saberes que estão fora do arco de referências que são ensinados na escola e universidade. Para Simas, a produção social do Rio homogeneizado e mascarado foi capaz de profanar o sagrado e sacralizar o profano.

Rufino fala do Rio como cidade encruzada e nos convida a pensá-la a partir do mote da encruzilhada de Exú. “A travessia identifica o Atlântico como encruzilhada, o translado da África representa o despedaçamento de uma forma de vida e a construção de outra através dos próprios cacos deste despedaçamento.” Isto é, a encruzilhada aqui se apresenta como abertura de caminho, como campo da possibilidade. Isto significa, portanto, olhar a cidade como lugar do inesperado.

Com isso, Rufino exalta a importância da sabedoria de rua, do encantamento da malandragem que é nada além de uma forma de coexistir, de driblar as dificuldades e barreiras do caminho. Para exemplificar, ele fala da negaça, o golpe que se dá sem ser percebido na capoeira. Isto porque as práticas urbanas de resistência negra se dão no campo da vivência, do cotidiano. E na linguagem da capoeira, o jogo não parte do pressuposto de eliminar o adversário mas sim de driblá-lo, coexistir com ele e se manter forte na luta. Assim se dá a cultura de frestas, frente a ausência nasce a possibilidade, frente ao silenciamento nasce a voz do corpo, uma linguagem própria que se traduz em resistência cotidiana. É uma forma enigmática de falar, quase codificada mas por que não encantada? Sutil, porém forte.

Adriana Facina lembra que, levando em conta essa resistência, a cidade já é nossa. “Independente das forças políticas, estamos a tempo fazendo dela a nossa cidade. Produzimos sentido, é o que fez essa cidade o que é culturalmente. É inviável uma cidade cujo projeto negue o seu sentido.” Um exemplo dessa negação é a ideia de que as UPPs foram um marco-zero para a cultura da favela, como se nada houvesse antes de sua chegada. Para Adriana, a favela é dotada de uma cultura de sobrevivência em todos os aspectos. A necessidade de improvisar até as coisas mais básicas cria um ponto de partida, uma forma única de criação de arte e de sentidos. A vida que foge de uma lógica cartesiana, pela impossibilidade de operar através dela, recria-se em diferentes formas culturais, sendo reproduzida e refletida através de seus produtos: a arte, a música.

A cidade do encontro

Sendo assim, é imperioso abandonar a perspectiva colonial que está por trás da ideia de “levar cultura” ou “salvar vidas”, comum em discursos dos mais diversos espectros da política no que diz respeito às favelas. Para isso, Facina ressalta a necessidade de ouvir o que esse povo tem a dizer sobre a cidade e aprender sobre suas formas de produzir cidade. Ela cita exemplos de resistência na comunicação popular, no debate do território e do meio ambiente, e também nas artes. “É preciso abrir o canal de escuta, nos livrar de sentenças e conceitos para pensar essa cultura e trazê-la ao pano de frente da produção da cidade.” Este Rio de outros olhares e saberes não admite mais a missão civilizatória, o povo marginalizado é bacharel em produção da cidade, em invenção da vida. Não precisamos importar modo de vida.

É de comum acordo que a cidade que queremos é aquela que não hierarquiza culturas nem torna invisível seus sujeitos. É aquela em que a arte está a serviço da felicidade e da liberdade. Sendo assim, um projeto libertador de cidade não pode conviver com a criminalização do Estado às manifestações culturais nem com o adestramento das formas de expressão estética, como bem lembra Adriana Facina. Queremos a arte emancipadora, cuja potência é criar novas percepções de mundo. A arte como forma de exercer o direito de expressão e não como estratégia de resgate do outro.

Dessa forma, o que a cidade-negócio nos traz do ponto de vista da cultura? “Quanto mais segregada a cidade for, mais pobre culturalmente ela será.” E com isso, Facina aponta a importância de pensar a riqueza da produção do espaço a partir da criação de cultura, como forma de vislumbrar a cidade que queremos. Afinal, qual a contribuição cultural de uma reforma urbana que se dá de forma autoritária? Não queremos uma cidade que produz inimigos e impede encontros, mas sim uma cidade que reconhece seu multiculturalismo e se orgulha dele para além do espetáculo, conferindo visibilidade aos seus sujeitos. A estratégia para a construção de uma cidade rebelde é dar voz às rebeldias existentes.

Falamos aqui de cultura, de forma de vida. Esta em particular remete a uma face do Rio, que é marcada pela condição de subalternidade do negro em nossa sociedade, que precisa driblar as dificuldades para sobreviver e nisso consiste a ideia de reinvenção da vida. Queremos uma cidade em que as pessoas tenham direito a tudo aquilo que precisam para serem felizes, portanto, não se trata de romantizar a pobreza. E sim de reconhecer a força da resistência e a riqueza simbólica das manifestações culturais que provém dela. Mais do que isso, se trata de reconhecer que este povo até hoje subalternizado faz parte da cidade, ele a constrói, e não pode mais ser invisibilizado. É inadmissível que a cultura negra tenha lugar de destaque no imaginário da cidade e o negro não. É preciso quebrar a perspectiva monocultural e assumir a pungência de culturas oriundas dos outros Rios. E aprender com elas. Pois nada disso seria possível sem uma boa dose de rebeldia e coragem. Acreditamos que a desobediência necessária para reinvenção da vida é a mesma capaz de reinventar – por que não? – a cidade.