Um mundo em colapso – as contradições do capitalismo por David Harvey

Em seu segundo dia de conferência, David Harvey escolheu como tema as contradições que envolvem o capitalismo e ameaçam a sociedade através de um colapso ambiental e de trabalho. Em sua narrativa marxista, o geógrafo traça as artimanhas históricas perpetradas por um capital de crescimento composto, baseado em várias e sucessivas crises e que aposta na especulação imobiliária como forma de continuar se sobressaindo. E isso, às custas de uma urbanização desenvolvimentista sem garantias dignas para aqueles que por ela são impactados.

photo123711074514091808

Por João Paulo Oliveira*

Pela manhã, homens da administração municipal passaram alguns minutos verificando plantas, consultando mapas e fazendo medições em um terreno. Ao longe, ele nem parecia habitado. Entretanto, havia ali algumas dezenas de famílias, normalmente desassistidas há décadas e que possuíam sociedade quase própria, tal era a distância do centro urbano.  Em seus smartphones pensados e negociados pelos EUA, mas montados por chineses, logo os dados chegam a uma central por um app alemão de gerenciamento de obras. Do outro lado da ponta digital, o funcionário distribui os resultados para as instâncias interessadas e o processo passa a dar andamento. Do judiciário à mídia, passando pela cadeia da construção imobiliária e de investidores financeiros, em pouco tempo os tratores, os editoriais e a violência de estado expulsarão a vida, as histórias e os afetos de pessoas. Suas casas e memórias darão lugar a autopistas, shoppings e lares para novos ricos.

Essa não é a realidade de uma cidade neste exato momento no planeta, mas de várias: Rio de Janeiro, Istambul, Dubai, Johanesburgo e nas, segundo Harvey, “250 cidades chinesas com mais de 2 milhões de habitantes criadas nas últimas décadas”. Categorizados por Truman em 1949 como “subdesenvolvidos”, a urbanização desenfreada de países da América Latina, do Oriente Médio e Ásia, além do antigo bloco soviético e da China, é uma espécie de cartada final do próprio capital financeiro apoiado na cadeia da construção e nos fundos de investimentos. Falido de áreas e com uma população imensamente endividada, as corporações e grupos norte-americanos e europeus se voltam para o mercado de trabalho e consumo desses países, antes periféricos.

A massa de trabalhadores no mundo passou de dois para três bilhões em poucas décadas com a introdução de nações que antes não operavam pelo sistema capitalista, capitaneado economicamente e temporalmente pelos Estados Unidos. Apostando na especulação, agora imobiliária, a financeirização da economia e da vida das pessoas gera um sistema de produção global que faz os ricos, cada vez mais ricos e distantes de toda a civilização. Uma espécie de bolha para 1% da população da terra. Um estudo apontou que em 2016, essa fração passou a possuir mais riquezas do que as outras 99% da população mundial.

A contradição do crescimento composto permanente

Em 2014, o professor e geógrafo marxista David Harvey lançou o livro “17 contradições e o fim do capitalismo”. Nele, tratou das contradições internas do capital que condicionaram as crises recentes. Apesar da flexibilidade e resiliência do capital criadas por essas contradições, elas têm em si o germe de uma catástrofe sistêmica. O professor de 80 anos iniciou a conferência “Cidades Rebeldes e Espaços de Esperança: As raízes urbanas das crises capitalistas” explicando a primeira de três contradições que permeiam suas aulas ao longo da semana: o crescimento composto. No vídeo, Harvey explica o conceito através de uma metáfora apócrifa sobre o jogo de xadrez:

Ao mesmo tempo em que os recursos minerais de algumas nações são desviados para o interesse externo, grupos de investimento compram áreas e propriedades em várias cidades desses mesmos países. Assim, um ciclo de submissão ao interesse do capitalismo suga e submete o trabalhador, a natureza e o meio urbano e áreas naturais de várias cidades e países ao redor do globo. Entretanto, alerta, esse ciclo está se esgotando e a África não consegue absorver a demanda:

“Nessa dinâmica de crescimento, nada sobrou no mundo para essa expansão. A última grande reserva de trabalho está na África mas não está nem perto da reserva de força de trabalho que foi absorvida na China. As contradições se alimentam umas às outras para ocorrer crises”:

O país asiático se tornou o motor para que o funesto crescimento composto, organizado pelo capitalismo global, causasse também danos ambientais, muitas vezes irreversíveis em países com rápida expansão urbana. A China, por exemplo, acabou absorvendo matérias-primas para a fabricação de suas cidades e salvando o mundo financeiro em parte depois da crise de 2008. Consumiu metade da produção mundial de vários metais e acabou pressionando a uma elevação na mineração em vários países. Para Harvey, essas consequências danosas ao meio ambiente fazem parte do próprio salvamento engendrado pelo capitalismo em crise:

Crise do trabalho e nova urbanização – razões históricas para um colapso

O geógrafo aponta que os Estados Unidos foram salvos pela reorganização urbana e a integração da economia do país com o sul e o oeste. Isso criou condições para a “suburbanização”, uma reconfiguração que tirou os norte americanos da depressão e o conseguiu manter o país economicamente viável no pós-guerra. Segundo Harvey, o que nao o levou à bancarrota foi a construção de novas casas e enchê-las de produtos, fazer estradas e preencher as cidades com obras arquitetônicas.

A burguesia norte-americana ficou em um dilema por ter novamente a necessidade de expandir o consumo de propriedades e bens depois da recuperação econômica e da II Guerra. Assim, as corporações tiveram que entrar em acordo e aumentar o salário de seus trabalhadores, mais exigentes e necessitados de prosperidade após o terror da guerra. Isso prosperou até os anos 1960 quando se percebeu que nem todos estavam incluídos nessa espécie de Era de Ouro, especialmente, a população negra. A economia estava sendo pressionada por três lados ao mesmo tempo: os donos não estavam vendo lucros em seus investimentos; os salários e os trabalhadores estavam altos e organizados; além é claro, dos centros urbanos abandonados mostrando de forma explícita o preconceito racial declarado e excludente desse modo de vida ideal. Com a mudança do direcionamento econômico e a expansão da luta racial e trabalhista, a morte do líder negro Martin Luther King foi a gota d´água para a explosão de várias revoltas em 158 cidades por todo os Estados Unidos.

Havia uma crise urbana e algo precisava ser feito. Enquanto a Guerra Fria, os Beatles e o Vietnã entretinham a mente e enchiam os bolsos de um capitalismo quase morto, quase nascendo, os financistas pensavam em como expandir novamente. As corporações negociaram com sucesso e mantiveram seu crescimento composto, inventando uma reestruturação urbana massiva e criando novas instituições, financeiras principalmente, para dar crédito a esses novos projetos. Ao mesmo tempo, o incentivo à imigração pressionou os salários e os ânimos da classe trabalhadora, fazendo-a recuar já em 1970. Para Harvey, é nesse sentido, de ser um ativo e ser meio para a circulação do crédito (fazendo aparecer no mercado ações e títulos instantaneamente e transformando-os, de alguma forma ou de outra, em moeda e consumo), que a urbanização se insere também no volume da macroeconomia, ela “está conectada à saúde macroeconômica, como também ao desastre macroeconômico. Foi preciso a criação de corporações financeiras que garantissem o crédito para esse novo planejamento. Para construir novos bairros e estradas, os governos e os bancos centrais imprimiram e renovaram os zeros de suas moedas. O capitalismo ficou angustiado, com medo de perder seu poder para o forte movimento trabalhista, seja na França, na Itália ou nos Estados Unidos ”, avaliou.

photo181800365458566460

Por conta do fortalecimento dos sindicatos e movimentos de trabalhadores, as corporações começaram um lobby para o incentivo à imigração. O trabalho local estava hipervalorizado e era necessário trazer mão-de-obra barata para substituí-los em determinadas funções e também, servi-los em novas. Na América do Norte, os mexicanos tiveram a ida facilitada para trabalhar em postos de serviço da nova economia. A situação pressionou a classe trabalhadora dos Estados Unidos, justificando a imigração e fazendo com que ambos pagassem pelas dívidas contraídas pelo estado e empresas. Ao mesmo tempo, a crise mexicana de 1982 arrochou a vida do cidadão e fez com que o país vizinho aproveitasse a debandada para estados do sul e oeste, pagando salários abaixo do mercado norte americano e formatando um novo modelo econômico e pós-industrial: o neoliberalismo.

Desde os anos 70 nos financeirizamos tudo. O dinheiro se move muito mais rápido desde então. Havia uma experiência bastante tranquila do crescimento até os anos 70. Houve uma serie de crises uma das primeiras grandes crises foi a de 1982, da divida dos países em desenvolvimento, especialmente o México. Foi resolvida com a mesma técnica pra disciplinar a cidade de Nova Iorque nos 1970: reurbanização e dificuldades para o trabalhador. A solução foi fazer a classe trabalhadora pagar por essa falência, salvando as instituições e diminuindo bastante o bem-estar social e os direitos.” Esse tipo de política foi um acordo entre o mercado financeiro e as entidades políticas e continua sendo um modelo utilizado até hoje, como no caso recente da Grécia, onde o capital da dívida nem passa pelo país. Vai direto das entidades europeias para os bancos credores do país

A bolha imobiliária norte americana em um mundo salvo pelos chineses

Com a imprevisibilidade das bolsas de valores, o capital financeiro teve que encontrar uma nova solução para gerar capital a partir dos anos 1990. Depois de uma frustração com a bolha digital no início do novo milênio, iniciou-se um movimento de incentivo ao investimento imobiliário a partir de 2002, 2003. Porém, não apenas de pessoas e empresas acostumadas a isso e sim, de qualquer um que “deveria” ter uma casa. O setor imobiliário passa por um novo boom e muita gente tomou dinheiro emprestado para comprar imóveis sem entrada e sem qualquer restrição. A ideia – a aposta financeira, era adquirir o imóvel e dali dois, três anos vender, tendo um lucro sobre a jogada inicial. Ou seja, pagar o empréstimo e ainda conseguir um troco a mais. Muitas famílias ao invés de gastar o crédito nas prestações, pensando no lucro certo e incentivados pelo Ato Patriótico de George W. Bush, torraram os dólares no consumo do comércio e de serviços.

Todavia, por volta de 2007 e 2008, o preço dos imóveis começou a cair pois, além da alta quantidade casas e apartamentos em oferta, muitos endividados não conseguiam mais pagar suas hipotecas. Segundo Harvey, 7 milhões de famílias perderam suas casas nos Estados Unidos, mas a individualização da vida já estava tão encrustada no imaginário dessas pessoas que elas pouco ou nada protestaram, diferentemente dos anos 1960.  “Estavam tão acostumados com a ideia de que eram sozinhas, que ´se você tiver um problema a culpa é sua´, ninguém pensou nas razoes sistêmicas. Então, não houve uma revolta popular maciça”, afirmou o professor.

Mais uma vez, a crise de endividamento dos consumidores e investidores norte americanos provocou uma nova crise nas instituições financeiras e como antes, alguém deveria pagar por isso. Em dois anos os bancos se estabilizaram, salvos por manobras do executivo e do congresso norte americanos, mas as pessoas continuaram sem ter onde morar e passados oitos anos desde a crise, enfrentam o desemprego e pagam taxas exorbitantes de aluguel, esfacelando a renda e a demanda por produtos e serviços. A diminuição do consumo gerou colapso também no mercado que produz esses bens e nos lugares onde se produz e consome esses materiais e serviços. Nesse contexto, é possível explicar a necessidade do capital em deteriorar as condições de trabalho e a vida das pessoas para que estados possam pagar títulos de suas dívidas às corporações financeiras ou invés, de dar prosseguimento às políticas de bem-estar social. Deixa-se de investir em áreas que proporcionam bens coletivos em prol de uma política devastadora de austeridade para beneficiar uma ínfima minoria que controla o sistema financeiro e os investimentos.

O colapso só não veio na década de 2010 por que a China estava em virtude de crescimento. Harvey aponta que a urbanização do país garantiu dividendos à economia global e a tirou do colapso. A China cresceu anualmente 10%, sobretudo com a suburbanização e a construção de cidades e grandes estruturas por todo o país. Entre 2012 e 2013, a nação asiática consumiu mais de 50% do cimento que os outros países de todo o mundo tinham consumido em um ano. “O que significa esse consumo em temos ambientais?”, perguntou o professor. “Quantos países da América Latina, da África e até a Índia tiveram suas terras devastadas por uma nova onda extrativista, destruindo boa parte daquilo que havia sobrevivido ao ímpeto do Século XX” ?

Cidade chinesa

O excesso de crédito e obrigações para se obtê-lo também produziu uma dívida interna gigante nas cidades chinesas, bem como em várias outras ao redor do mundo. Harvey defende que muitos desses projetos urbanos não são para as pessoas, mas para investidores. Assim, a preocupação com as questões locais não entram na pauta de seus financiadores e também, dos mediadores regionais. O que se tem são cidades negócios, sequestradas por grupos com ramificações desde a política e administração pública, passando pelo judiciário, meios empresariais e mídia. No Rio, a Prefeitura, dentro dessa lógica, é pressionada a preencher requisitos tais para satisfazer seus investidores e garantir sempre o grau de investimento à cidade. Isso significa que remoções, remodelações urbanas, expansões e criação de novas vias estão atreladas ao cumprimento de exigências em troca de crédito e visibilidade global: “o capital constrói cidades para investir e não para que pessoas possam morar lá”. Portanto, vivemos em um lugar em que as regras de urbanização e de investimentos de nossos impostos são gerenciadas por asseclas de investidores externos que pouco se importam com a vida real e pulsante da idade, senão as notícias e informações que das fotos e relatos oficiais prosperam.

Se os processos de urbanização exigem despejar grande número de pessoa na área alvo de possíveis investimentos na cidade, então suas vidas e memórias são removidas com o aval do poder público, uso da coerção de suas forças militares e apoio de seus aliados na mídia e política. A alternativa que se dá aos corpos, aos cidadãos e suas histórias, é levar essas pessoas para locais afastados do centro, onde não há oportunidades de trabalho, escolas ou mesmo a simples compra de alimentos. Assim, com o tempo elas acabam voltando para o centro e ficam, portanto, sem casa (nem a anterior nem a nova). Para Harvey, “a dinâmica está todo a errada. O capital está tentando aumentar seus lucros, criando índices de crescimento ao gerar urbanizações sem sentido, em um projeto global”, conclui. Sendo assim, mais do que necessária a reação das pessoas em tomar de assalto as ruas, exigindo a poética e a política, em uma dialética do cotidiano.

* Colaborou Tatiana Lima

Assista à aula em sua íntegra: