Encontro das Águas: crise hídrica é uma questão política

Dezenas de pessoas ocuparam o Largo da Prainha para debater a crise hídrica (Crédito: Leon Diniz)

Dezenas de pessoas ocuparam o Largo da Prainha para debater a crise hídrica (Crédito: Leon Diniz)

A crise hídrica não é uma questão técnica, é política. O problema ganhou a agenda nacional após longos períodos de estiagem há cerca de dois anos, mas a escassez de chuva não é a principal causa dos prejuízos no abastecimento. Até porque há décadas amplos setores da população sofrem com a falta de água na Baixada fluminense e no semi-árido. A desigualdade no acesso à água é estrutural, assim como a desigualdade brasileira. Os problemas estão interligados.

Ontem, no dia de Iemanjá, a água foi o assunto do debate de mais um encontro do Se a Cidade Fosse Nossa. O Encontro das Águas, realizado no Largo da Prainha, na Região Portuária, começou às 15h com uma oficina sobre captação de água da chuva, apresentada pelo coletivo Águas de Março, e foi encerrado à noite com show do Bloco das Águas.

Dezenas de pessoas ocuparam o largo para participar do debate, que teve como provocadores Flávia Vieira, pesquisadora do Observatório Fluminense e Assessoria Técnica Meio Ambiente e Barragens (UFRRJ), Júlio Vitor, pesquisador do Grupo de Estudos em Educação Ambiental Desde El Sur (UNIRIO) e Stelberto Soares, engenheiro sanitarista e diretor do Sindicato dos Engenheiros.

Oficina sobre sistema de captação de água da chuva (Crédito: Yi Jing)

Oficina de captação de água (Crédito: Yi Jing)

Questão política

Flávia Vieira contextualizou historicamente o problema para mostrar como a água passou de bem público a mercadoria. Um direito transformado em negócio altamente lucrativo. A pesquisadora defendeu a importância de as pessoas economizarem água, mas alertou que é ilusório acreditar que o problema está no consumo dos indivíduos e das famílias. A economia doméstica não tem impacto real sobre o problema da desigualdade da distribuição da água.

Segundo a Water Footprint Network, entidade internacional que debate e propõe iniciativas para preservar e promover a distribuição justa da água, são necessários 300 mil litros para fabricar uma tonelada de aço e 400 mil litros para produzir um automóvel. No caso do carro, o volume equivale 3.300 banhos de quinze minutos.

“Centenas de indústrias consomem mais água do que o total da população. Mas proporcionalmente, essas indústrias pagam menos do que os indivíduos. Quem obtém lucro através do uso de um bem comum deveria pagar muito mais”, explicou. Além disso, muitas indústrias instaladas perto de mananciais provocam enorme prejuízo. É caso das fábricas de celulose, como a Suzano Papel e Celulose, que funciona próximo ao sistema Cantareira. Os eucaliptos são desertos verdes que consomem grande quantidade de água e esgotam as fontes de abastecimento.

Flávia defendeu o aumento da tarifa de água para indústrias, o escalonamento do valor de acordo com a renda das famílias, a proibição da instalação de fábricas nas imediações de mananciais e a recomposição de matas ciliares.

Sobre as questões políticas, o engenheiro Stelberto Soares lembrou o caso da concessionária Foz do Brasil, controlada pela Odebrecht, responsável pelo serviço de esgotamento sanitário em 21 bairros da Zona Oeste do Rio, onde vivem cerca de 1,7 milhão de pessoas. Apesar da pressão para que a empresa priorizasse os conjuntos do programa “Minha Casa, Minha Vida” em Cosmos, Santa Cruz, Campo Grande e Paciência, as obras começaram por Deodoro. O motivo? As Olimpíadas. Lá está sendo construído o Complexo Esportivo de Deodoro.

Distribuição e tratamento

O engenheiro alertou também sobre a importância de se acompanhar todas as etapas de produção, distribuição e tratamento de água, para evitar perda e a poluição de mananciais. “A Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgoto) já teve perda de 70%. Hoje ela admite algo em torno de 30% e 37%”, afirmou.

“Cada habitante do Rio consome em média 200 litros de água por dia. Deste total, 80% vira esgoto, são 160 litros. Isso está indo para onde? Para os rios e para a Baía de Guanabara. Então, não poderemos tirar água dos rios, porque eles estão poluídos”, disse.

Stelberto chamou atenção para uma confusão comum propalada pelo governo e por veículos de comunicação segundo a qual 85% dos esgoto produzido na cidade é tratado. A informação é falsa porque apenas 56% dos dejetos são coletados no Rio. Destes, 86% são tratados. O saneamento é precário.

 

Exposição de Daniela Fichino sobre crime em Mariana (Crédito: Yi Jing)

Exposição de Daniela Fichino sobre crime ambiental em Mariana (Crédito: Yi Jing)

Iniciativas populares

Júlio Vitor, mestrando em Educação na UNIRIO, defendeu que o problema da água precisa ser tratada para além da questão ecológica. “Por que algumas pessoas têm água e outras não têm? É uma questão técnica? Por que bairros que estão ao lado do sistema do Guandu, o maior da América Latina, sofrem com a falta de abastecimento de água? A água está ligada ao poder”, pontuou.

Júlio destacou a importância de os movimentos sociais e pesquisadores ouvirem mais os moradores das favelas onde os problemas de abastecimento são históricos. Ele falou sobre a mobilização que levou a formação de grupos no Morro da Formiga, na Tijuca. Batizadas sociedades de águas, elas discutem formas de garantir o fornecimento a toda comunidade.

“Já houve um projeto na Formiga que foi implantado sem nenhum diálogo com os moradores e sem levar em conta o saber popular. O resultado é que até hoje o sistema não funciona e não alcançou a parte alta da favela. Se não existissem as sociedades de água muitos moradores não teriam água até hoje”, afirmou.