Como mobilizar Ruas e Redes?

Seminário promovido pelo Se a Cidade Fosse Nossa reúne ativistas e coletivos para debates sobre formação e ação de mobilização para a cidade do Rio de Janeiro. Iniciativa tenta resgatar a participação popular na vida urbana.

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O diálogo entre a rua e as redes digitais já não é mais uma contradição. Pelo contrário, a cidade e a internet cada vez se mostram mais em sincronia para divulgação e mobilização social. Eventos dos mais variados gostos e propósitos – criados e divulgados via internet, estão acontecendo em praça pública ou mesmo, em locais de encontro de diferentes perfis e propósitos. O Se a Cidade Fosse Nossa se coloca como uma tentativa de reunir opiniões e expressões dessa agitação comunitária e de troca de saberes e experiências que ocorrem entre vizinhos, transeuntes e pessoas que se engajam pela mesma causa, seja ela a praça do bairro, as condições de transporte ou o saneamento da área. Desde junho de 2015, já foram realizados nove encontros territoriais e outros temáticos que podem ser conferidos no mapa abaixo – clique nos ícones para obter informações de cada evento:

Foram dezenas de pessoas, vindas de várias partes da cidade, reunidas em um final de semana para trocar, aprender técnicas e também obter dicas de como se organizar para construir um outro Rio de Janeiro. O seminário de “Mobilização para Redes e Ruas” aconteceu nos dias 20 e 21 de fevereiro, no Galpão Ladeira das Artes, no Cosme Velho e contou com a participação de militantes de movimentos sociais, ativistas, jornalistas comunitários entre seus professores e apoio do coletivo Fora do Eixo.

A ideia é que vocês possam refletir sobre os desafios da mobilização popular onde vivem e possam construir iniciativas comuns de mobilização em seguida. Por isso, durante os debates, os grupos de discussão são formados pelos moradores e moradoras de um mesmo território. (Manual entregue aos participantes do seminário)

A iniciativa teve como objetivo promover a integração, capacitação e mobilização daqueles que veem a participação social efetiva como uma ferramenta para a transformação da cidade e de sua comunidade. Situação urgente e impossível de ser pensada de forma centralizada e fechada em gabinetes. As soluções chegam para a população de forma verticalizada, sem a real consulta aos desejos e necessidades dos moradores. Para que a cidade seja realmente de seus habitantes, é preciso investir em uma democracia radical que possa reunir as pessoas e saber delas quais são suas necessidades, críticas e sugestões para a melhoria do convívio em uma metrópole atropelada pela ganância de grupos de poder econômico, religioso e político.

Os dois dias do seminário com palestras, dinâmicas e oficinas contribuíram para o fortalecimento das redes que pensam e constroem o Se a Cidade Fosse Nossa e apresentou pessoas, coletivos e outros agrupamentos sociais que agora também fazem parte desse processo. No primeiro dia do encontro, os participantes assistiram falas sobre a construção da mobilização popular e sua efetivação em cada território da cidade. Nos grupos de discussão puderam se reunir com as outras pessoas da sua região e se apresentaram, contando um pouco sobre suas experiências coletivas e razões de ter optado por fazer o curso. Já nas oficinas, a lógica foi diferente: para que em cada lugar houvesse a maior diversidade possível de habilidades, cada aula oferecida contou com pelo menos um representante de cada área da cidade.

Se a Cidade Fosse Nossa - Mobilizacao

Na abertura, o presidente do PSOL Carioca, professor Tarcísio Motta, deu início ao evento convocando os presentes a refletir sobre o estado atual da cidade,  os transportes, a baía de Guanabara, a militarização da guarda municipal, os reflexos diários na saúde, a educação sendo precarizada e a mobilidade se tornando um desafio que são, justamente, reflexos de uma falta de envolvimento popular nas decisões que acarretam em diferentes nuances, o direito à cidade para seus moradores. Tarcísio aponta o #SCFN como um projeto alternativo para o Rio, construído coletivamente desde o ano passado, “pensado pelas pessoas e para as pessoas” e que busca ouvir as vozes das ruas e de suas redes para a construção de um projeto com o máximo de unidade e justiça social urbana.

tarcisioComo construir a mobilização popular para radicalização da democracia?

A mesma pergunta foi dirigida a Guilherme Simões, membro do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), presente na abertura do ciclo de palestras do seminário. Simões contou sobre a história e o momento atual das mobilizações populares e também, da atuação em uma militância essencialmente urbana. Depois de quarenta minutos de explanação, os participantes foram divididos em cinco grupos de discussão. Foram propostas questões para ser respondidas pelos participantes dos grupos como: experiências de mobilização de cada um; participação em ações coletivas; Quais motivos levam algumas pessoas a se organizarem coletivamente e outras não? Na nossa cidade e em seu bairro existem exemplos vitoriosos de mobilização popular? Quais são os desafios para aumentarmos as mobilizações em nossa cidade?

Em cada um deles, a temática da mobilização para a luta política se tornou o principal emblema de debate. O item mais discutido foi sobre como mobilizar as pessoas no cotidiano e transformar as lutas em contínuas e coletivas. Juliana Almeida, moradora de Copacabana, acredita que um dos maiores entraves à participação popular é o modo como a política é visualizada dentro de um senso comum. Para Juliana, a atuação no cotidiano não pode ser vista como algo estranho, mas sim, vital: “quantas escolas têm grêmio organizado, quantas escolas têm estrutura para debates? E muito pior, quantos bairros, quantas comunidades estão organizadas? Então a gente, no dia-a-dia, aprendeu que a política não tem seu lugar”, questiona.

Guilherme Simões

A energia econômica, midiática e política dirigida ao Centro e Zona Sul do Rio faz com que áreas mais populosas e fisicamente maiores como a Zona Norte e parte da Zona Oeste, não só estejam relegadas a uma própria sorte, como se tornem locais de esvaziamento e mobilização política. Johanns Eller, de Jacarepaguá acredita que o Se a Cidade Fosse Nossa precisa quebrar essa lógica e “pensar em estratégias práticas e midiáticas para muito além da Zona Sul”. Para Johnns, devemos estar de forma mais incisiva na Zona Norte, em Jacarepaguá, Pavuna, Campo Grande etc. Em 2015, o #SCFN realizou nove encontros territoriais, sendo quatro deles nestas áreas: Jacarepaguá – Cidade de Deus, Méier, Realengo e Grande Tijuca. A previsão é de que neste ano, haja um esforço grande para que boa parte das atividades possam acontecer, justamente, nestas áreas em que historicamente, o Rio de Janeiro, dentro de suas oficialidade e extra-oficialidade parecem ter dado as costas.

Outra necessidade apontada pelos grupos é a de estar inserido de forma cultural dentro do contexto social da cidade. Para Rodrigo Veloso, do Recreio, precisamos ativar nossas potências criativas para estimular e influir nas narrativas da construção política, participando dos movimentos culturais; se relacionando com as camadas da população através de intervenções artísticas, disponibilização de informações e acesso ao debate e discussão da cidade de forma radical aos seus moradores.  

Para o Grupo de Discussão de Rodrigo Veloso do Recreio, é importante estar inserido na narrativa e da construção cultural da cidade.#seacidadefossenossa #redeserua #rio

Publicado por Se a Cidade Fosse Nossa em Sábado, 20 de fevereiro de 2016

Da mesma forma, João Vitor Assis aponta o preconceito, o desconhecimento e a desconfiança em relação ao indivíduo que milita, seja na política ou mesmo na cultura, dificulta o acesso e a participação de mais pessoas na construção coletiva de suas comunidades. Para o estudante de Comunicação Social da UERJ, devemos “disputar a opinião pública em cima de movimentos culturais”. Segundo o filho de pais que moram na Vila da Penha e no Morro do Juramento, quando militantes iniciam a organização de eventos, festivais, “as pessoas já olham aquilo como algo marginalizado. Seja um sarau ou um evento em praça”. Ou seja, o estranhamento da política cria nos indivíduos certo repúdio a qualquer tipo de tentativa de democratização do espaço público, afastando desse debate as próprias opiniões e desejos.

A mobilização de pequenos grupos como ferramenta de engajamento social

Segundo Tobias Farias é urgente que façamos pequenas ações de militância! É urgente se organizar núcleos, espaços e coletivos de militância. #seacidadefossenossa #redeserua #rio

Publicado por Se a Cidade Fosse Nossa em Sábado, 20 de fevereiro de 2016

A seguir, o seminário Redes e Ruas teve a participação do ativista Tobias Tomines Farias do Núcleo Socialista de Campo Grande e de Daniela Orofino, uma das responsáveis pela campanha “Amanhecer contra a Redução” e coordenadora da comunicação do Se a Cidade Fosse Nossa. Através do mapeamento das redes locais, os participantes deveriam discutir e apontar as lutas e mobilizações importantes na região de cada um, identificando atores e espaços sociais importantes no dia-a-dia. E a partir dai, entender como atuar com cada um deles, coletivos, grupos culturais, praças, associações de moradores, igrejas, salões de belezas, escolas, hospitais, prés-vestibulares, etc.

O momento também trouxe dicas importantes para se organizar espaços e ações que atraiam pessoas comuns sem experiência política prévia e também, ofereceu soluções de como dividir tarefas, lidar com diferenças e construir consensos, na articulação das diversas formas de ação e resistências em processos comuns. Por fim, tentou responder sobre as principais questões que mobilizariam as pessoas no seu bairro/território (escola, faculdade, local de trabalho, igreja, etc).

tobias

Tobias apresentou suas experiências e motivações para a mobilização territorial. Para o morador da Zona Oeste, em uma cidade com as dimensões do Rio, se torna extremamente complicada a tentativa de se falar/atingir todas e todos de uma vez só, ainda mais sem o apoio e afinidade dos meios de comunicação de massa. Portanto, é urgente que passemos a pensar em “pequenas ações, em micro ações, em nano ações. Por que nano ações nós somos capazes de fazer”, afirmou. Ele acredita que a organização de pequenos grupos é um ponta pé com mais equilíbrio e possibilidades de continuidade do que a aposta em grandes eventos de massa que podem não criar afeto nas pessoas para participações posteriores. Sua experiência em militância comunitária mostrou que muitas vezes uma boa ideia para quem está de fora, não necessariamente, representa algo positivo para uma comunidade assistida. As demandas devem vir de dentro, das pessoas que participam do cotidiano e constroem as vísceras do território. Sendo assim, “deve-se validar a tentativa revolucionária de militar no espaço de moradia, no espaço em que a gente vive e convive”, completou.

dani orofino

Se Tobias nos apontou as relações comunitárias como fonte para o engajamento territorial, a ativista Daniela Orofino trouxe ao seminário a ideia da construção de redes pelos mapeamentos de dados pelas vias digitais. Orofino explicou que existem vários projetos e ações acontecendo que podem e devem somar forças para que a discussão sobre a cidade também possa fazer parte de suas narrativas. Para Dani é importante saber como somar esses movimentos e as pessoas envolvidas em cada um, seja como proponente, produtor ou público, local ou mesmo, das redes sociais de seus participantes: “é preciso mapear quais eventos, espaços, grupos e pessoas de nosso bairro que podem ser tomadas pelo desejo de construir relações, debates e dar sugestões de como melhorar ou modificar a vida comum”, afirmou.

Tendo como princípio o pensamento apresentado por Tobias sobre a importância de criar pequenos grupos para que o trabalho tome corpo e, principalmente, comece; mas também sintonizado com as necessidades de catalogação e contato com os grupos e pessoas que podem ser acessadas pelas novas mídias, como pontuou Dani, os participantes se dividiram a partir de territórios como Campo Grande, Zona Norte, Laranjeiras, Ilha, Centro e Santa Tereza, e mais outros seis regiões do Rio. A tarefa foi catalogar atores, redes e espaços que possam contribuir para a mobilização em torno da cidade. Indivíduos e grupos que os próprios participantes conheciam ou mesmo, sabiam existir em suas regiões de atuação, aumentando a rede e mobilização em torno do Se a Cidade Fosse Nossa.

Antes da prática das oficinas (vídeo, design, fotografia, produção cultural de rua, produção de conteúdo, redes sociais, lambe e stencil), o segundo dia do seminário Redes e Ruas teve a participação de Cláudia Santiago, do Núcleo Piratininga de Comunicação. Ela apresentou a importância dos meios de comunicação comunitários e o papel de páginas, sites, redes sociais, grupos de whatsapp, jornais de bairro e WebTVs na resistência de regiões precarizadas pelas várias instâncias estatais e econômicas que comandam a narrativa da “opinião pública”. Para a jornalista, “o valor da luta dos trabalhadores é um paradigma para mudança social e mesmo, de visibilidade.
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A mobilização do local como forma de se libertar do monopólio de informações da mídia corporativa e empresarial é uma luta de décadas, mesmo durante períodos de repressão duros”, lembrou. Para Santiago, movimentos como o Se a Cidade Fosse Nossa têm um papel fundamental de apontar para a população a diferença entre os meios de comunicação tradicionais que escondem suas intenções sob a pecha de imparcialidade e a comunicação sindical, dos trabalhadores e partidária: “nós somos a comunicação do povo. Mas qual é a diferença entre nós e eles? Nós não mentimos! Nós dizemos: nós somos “isso”, nós somos um partido, nós temos ideias”.

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O encontro ainda foi presenteado com as presenças ilustres de Pedro e Jéfferson, ambos meninos dos Guararapes que se interessaram pela movimentação e também participaram das oficinas. Os meninos ajudaram a cortar stencil, colar lambes, bater fotos e até fizeram vídeo, terminando a noite como DJs da confraternização ao final do seminário. Com a força da participação de pessoas e coletivos que já estão em movimento intelectual e ativo, bem como a benção de duas crianças em nossas atividades, cremos que há sim uma esperança profunda de que seja realmente possível a cidade ser nossa, ser de todas e todos, discutidas de norte a sul e no oeste, bem como por mulheres, trabalhadores, crianças e idosos; travestis, músicos, acadêmicos e ambulantes… e quem for capaz de ver no encontro e na troca uma possibilidade a mais de construir um lugar mais justo, mais humano e acolhedor, contraposição ao modelo atual de artificialização da individualidade e endividamento social e comunitário por parte do poder público.

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Fotos:
NINJA, Katiana Tortorelli e Leon Diniz

Texto:
João Paulo de Oliveira