Crianças tristes em ruas mortas

Por Luiz Antonio Simas

criançasrua

Foto: Midia NINJA

Ultimamente ando matutando nos remansos sobre como a loucura do nosso tempo de indelicadezas maltrata as crianças. Estranho tempo em que a “adultização” das crianças anda ao lado da infantilização dos adultos. E tome de tranquilizantes e sedativos.

Tempo em que estamos (adultos e crianças) um passo além da sociedade de consumo. Já mergulhamos de cabeça, afinal, na sociedade do desejo do consumo, aquele que se esgota quando algo é consumido (o carro, o celular de última geração, o brinquedo eletrônico, o corpo do outro, o próprio corpo…) e outro objeto (coisas e pessoas coisificadas) é imediatamente desejado. Um ciclo de frustração, euforia e morte.

Tempo em que a agonia da rua como lugar de encontro – derrotada pela rua vista como ponto de passagem e circulação de bens– redefine até os padrões das amizades infantis. Sem a rua para brincar, as crianças acabam construindo amizades circunscritas ao ambiente das famílias, creches e escolas.

A limitação das amizades de escola é a seguinte: os alunos de uma mesma turma são submetidos ao mesmo padrão de aprendizagem. A escola ocidental, fundamentada no ensino seriado e na fragmentação de conteúdos, é normativa sempre e padroniza comportamentos mesmo quando adota linhas alternativas. O alternativo aí, afinal, vira padrão para o grupo. E a diferença? A rua poderia resolver isso.

Se a escola normatiza, a rua deveria ser o ponto de encontro capaz de permitir o convívio entre os diferentes, desestabilizando o padrão. Em tempos menos afoitos, cada criança trazia as bagagens de experiências distintas, na casa e na escola, que eram trocadas na rua de forma lúdica e docemente descompromissada, em um processo enriquecedor, a partir do ato de brincar.  Mas isso simplesmente não é possível nesse padrão de cidade desencantada que nos engole sem piedade.

Para brincar, afinal, há que se ter disponibilidade de tempo e espaço e há que se ter a escassez que permite a invenção. As crianças de hoje não têm nada disso; atoladas em múltiplas atividades, reféns do consumo do objeto vendido pronto, e confinadas entre muros concretos e/ou imaginários; erguidos de cimentos e medos.

A cidade que deveria proporcionar a circulação de saberes é cada vez mais a cidade que proporciona só a circulação de mercadorias e monstros sobre rodas (estranha sociedade a nossa, que sacraliza o carro e profana o rio). Nela, a rua como espaço de interação social entre crianças está morrendo. Eu fiz nas ruas grandes amigos; meu filho provavelmente não os fará.

O fenômeno, ao menos no Rio de Janeiro, minha circunstância, não é restrito a setores da classe média. Alguns fatores – como a gentrificação que envolve os grandes eventos; as remoções que desarticulam vivências; o trânsito caótico; a normatização estabelecida, com nuances, por milícias, igrejas neo-pentecostais, tráficos e upps – alteraram profundamente a dinâmica das brincadeiras de rua nas favelas e na hinterlândia carioca.

A cidade em que a criança não brinca é o sanatório dos adultos. A cidade em que os adultos só trabalham é um presídio de crianças. E poucos parecem considerar essa questão como de fato ela é: urgente e necessária; antes que às crianças restem apenas aplicativos de última geração, presenteados por pais ausentes, que rodem o pião que não tem mais chão e empinem a pipa que não tem mais céu.