Lançamento do Se a Cidade Fosse Nossa

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O lançamento do movimento Se a Cidade Fosse Nossa no dia 15 de junho lotou o auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) no Rio de Janeiro. Mais de 500 pessoas marcaram presença com vontade de debater e transformar a cidade em que vivem.

Veja abaixo alguns temas que surgiram durante o lançamento:

Juventude

Defensora de Direitos Humanos que atua com jovens infratores e fundadora do Movimento Moleque, Monica Cunha denunciou o abandono e a violência contra a juventude negra. “Os jovens negros não têm os mesmos direitos que os jovens brancos. A mídia cria os sonhos de consumo, o desejo pelo tênis e relógio de marca. Mas muitos não têm documentação, nunca foram ao cinema. É o absurdo do absurdo, porque a cidade é nossa. Ela foi construída por nós. Os jovens precisam conhecer o lugar em que vivem, tomar o poder, não serem encarcerados ou mortos, porque o sistema prisional tem cor, os cemitérios tem cor”, criticou.

Monica lamentou que, apesar de a cidade também ser da juventude negra, ela não pode circular livremente pelo Rio devido à discriminação e aos perigos gerados por ela. “O negro tem que se manter vivo para conseguir transitar pela cidade. Um jovem que vai passear pelas calçadas de pedras portuguesas de Copacabana tem que ter muito cuidado, andar na linha, se se comportar fora do padrão, vai correr riscos”, disse.

Democracia

O filósofo Vladimir Safatle falou sobre a importância de criar espaços para que as pessoas possam efetivamente opinar e decidir sobre as políticas públicas. Para ele, a população não pode ser tratada como mera espectadora, é preciso que as pessoas fora das instituições e partidos políticos sejam encaradas como atores sociais de fato. “Governar não é sentar num gabinete com um grupo de pessoas e elaborar algumas propostas. Governar é fazer a população se autogovernar. Hoje a política é tocada por tecnocratas”, explicou.

Safatle explicou que a inteligência prática e a experiência das pessoas que atuam na ponta dos serviços públicos, por exemplo, precisam ser levadas em conta no planejamento e execução de políticas públicas. “Uma das maiores astúcias do poder é fazer com que os subjugados acreditem que não têm força. Isso cria um horizonte de expectativa retraído, como se tivéssemos medo de apresentar nossas propostas”, concluiu.

Cidade-negócio

A arquiteta e urbanista Raquel Rolnik afirmou que as favelas não são tratadas como parte da cidade. Segundo ela, há uma ambiguidade na relação entre as áreas populares e o poder público. “Na hora de votar e servir de bases eleitorais, elas são parte da cidade. Mas não são quando falamos do acesso a serviços públicos. Essa ambiguidade é mais perversa do que a negação, porque ela engana”, explicou.

Para Raquel o Rio vive problemas comuns às cidades-negócios, em que os modelos político e de gestão urbana são controlados pelo capital, representado principalmente por empreiteiras, construtoras, incorporadoras que financiam campanhas e administram concessões públicas. “São esses atores que definem as formas de políticas públicas. As políticas são dirigidas para eles, não para a população. Todo o setor público está estruturado para esta finalidade. No Rio, esse modelo serviu de instrumento para abrir uma frente imobiliária, como vemos no Porto Maravilha, onde uma área pública foi privatizada”.

Direito à cidade

O deputado estadual Marcelo Freixo apontou que esta captura do poder público por interesses privados é um dos principais fatores de piora da vida na cidade. “O Rio é um exemplo de cidade-negócio, onde o urbanismo de mercado faz do gestor público um executivo do capital. O resultado disso é o encarecimento da vida, a especulação imobiliária, as remoções forçadas, a precarização dos serviços públicos”, disse. Ao final de sua contribuição, saudou o lançamento do movimento de forma enfática: “As eleições são importantes, mas os nossos sonhos não cabem nas urnas. Não queremos só o direito à cidade, mas o direito de debater e transformar a cidade”.

Assista a cobertura do lançamento: